Uma história por dia 27

«Local de nascimento, Chicago, tinha escrito ela. Eu disse-lhe que não tinha nascido em Chicago, mas sim algures num matagal. Num algures obscuro. (Tentando causar uma forte impressão.) Fosse como fosse, ela queria descobrir o hospital exacto em que o acontecimento tinha ocorrido. Não recuava perante nenhum obstáculo. Queria fazer-me um horóscopo. Uma coisa escrita num papel que determinava a minha ligação aos movimentos dos planetas. Fez todas as perguntas e mais algumas na sua carta à enfermeira-chefe e esta respondeu-lhe a tudo. (Pelo que eu sabia, podia concluir que as respostas eram todas falsas.) Por exemplo, a hora exacta do meu nascimento, segundo esta enfermeira-chefe, era as três da tarde do dia 5 de Novembro de 1943. («Dia de Guy Fawkes», em que os miúdos, na Inglaterra, fazem uns bonecos idiotas e sentam-se à saída das lojas pedindo um «tostãozinho para o Guy».) Mas tenho a confirmação, através de outras fontes (não a minha mãe), de que foi à volta das 2.47 da manhã que nasci, ou seja, às primeiríssimas horas de uma madrugada gelada. Foi num quarto pobre, com um chão de ladrilhos brancos e duas janelas que davam para o lago Michigan, que, nessa altura do ano, se encontra coberto por gigantescos icebergues verdes. Não havia trânsito na rua em frente e a cidade estava às escuras devido ao recolher obrigatório em tempo de guerra.
Mergulhei no mundo de cabeça para a frente e, apesar de coberto de sangue, a minha atitude foi muito amistosa. Nessa altura, não era mau tipo. Estas fontes anónimas acrescentam que eu não queria mais nada do que ver o gelo. Deslizei da cama e arrastei o meu corpo atarracado até às duas janelas. A minha mãe tinha ficado num estado de inconsciência, devido à dura prova por que passara, e não havia nenhuma enfermeira de serviço. Por isso, tirei o máximo partido possível da minha nova mobilidade no exterior. Apercebi-me de que os meus braços eram muito mais fortes do que o resto do meu corpo. Conseguia arrastar tduo o que quisesse atrás de mim. Sabia que não era um potro. Que só dentro de alguns meses ficaria bem fincado em pé sobre aquelas pernas. Sabia, sem a mínima dúvida, que não era uma rã ou um pássaro. Portanto, arrastei o resto do meu corpo até às janelas.
Quando cheguei à parede, tive a minha primeira experiência do que é realmente sofrer. As janelas estavam mesmo por cima da minha cabeça, mas eram demasiado altas para que eu lhes pudesse chegar. Uma luz verde pálida penetrava no quarto, através delas, lançando um duplo feixe de claridade sobre a minha mãe, incosciente. Observei o seu corpo. Sabia que tinha saído do corpo dela, mas não tinha a certeza como. Sabia que, nesse momento, eu já estava fora do seu corpo. Separado. A parede era de um castanho quente. Ouvi um murmúrio ao longe. Passado algum tempo, reparei que eram aviões militares B-29. Senti, subitamente, um pânico tremendo. Eu estava entre esses dois mundos. O mundo de onde eu tinha saído e este novo mundo. Não fazia a mínima ideia para onde havia de me virar.
Chegadas a este ponto, as misteriosas testemunhas do meu nascimento alegam que perderam o resto dos meus progressos. Tinham concluído que tudo estava bem comigo e, por isso, foram-se emborea em direcção ao lago Erie, atravessando os icebergues verdes.
A minha amiga fez o horóscopo de acordo com a data falsa que tinha obtido junto da enfermeira. Disse-me que eu tinha uma vida muito interessante, mas muito difícil, à minha frente, e que o meu Saturno se encontrava exactamente na mesma posição que o do Goethe. Não lhe pedi mais pormenores. Ela tinha um ar tão meigo e inocente.

3/7/81
Cotati, Ca

[«Crónicas Americanas», ©Sam Shepard, Difel, pag. 65-68]

[Ruben P. Ferreira]

 

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