Uma história por dia 30

«Um Impala vermelho de 1959, desengonçado e amolgado, com guarda-lamas de alumínio, rodas vagarosamente através da pastagem viçosa, em Napa. O único carro na estrada. Este é o primeiro dia da nova década e procuro não interpretar este facto como um sinal seja do que for. E muito menos como um sinal dos tempos. Estou sentado, num descanso absoluto, num camião impecável, com a minha mãe, o meu filho e o meu cão. Não consigo despegar os olhos do carro vermelho. A forma como ele desliza. A forma como ele corta o caminho através desta remota terra lavrada, com um ligeiro desdém citadino. A antena cromada suavemente cortando os ares. Uma terrível varinha mágica caçando sons vindos de torres longínquas.
A voz da minha mãe, que conta ao meu filho a história do meu avô, do meu pai e do galo. É assim: «Um dia, quando o meu era ainda um bebézinho, ainda gatinhava, andava a brincar na capoeira das galinhas. O pai dele (o meu avô) estava a observá-lo de uma certa distância, no alpendre, sentado numa cadeira de baloiço. Um grande galo Leghorn foi atrás do meu pai para lhe picar os olhos. O meu avô levantou-se, desceu do alpendre, pegou numa chave do tractor e atirou-a com toda a força, degolando o galo. O meu pai nunca se apercebeu da causa do sucedido. Tudo o que viu foi, num momento, um galo inteiro, no momento seguinte, um galo sem cabeça. O meu avô voltou para o alpendre e sentou-se de novo na cadeira de baloiço. O meu pai continuou a gatinhar por ali à volta. O galo andava às voltas à procura da cabeça.»
O Impala vermelho desaparece atrás de uma fila de enormes eucaliptos. A pastagem está empapada da chuva. Não me apetece mexer nem um só dedo. Neste preciso momento, podia decidir-me a viver neste camião. Deixaria depois a erva crescer e enroscar-se pelos pneus.

1/1/80
Napa, Ca

[«Crónicas Americanas», ©Sam Shepard, Difel, pag. 72,73]

[Ruben P. Ferreira]


 

Quantcast