Aforismos: o aborrecimento do cínico

O cinismo é uma arma poderosa. O cínico expõe as suas razões ignorando a razão que ordena o mundo. Para ele, existem duas visões distintas e dissociáveis: a razão própria dos seus actos e a razão ignóbil dos actos dos outros. Nenhuma delas se cruza na esfera do espaço público, porque a segunda é sempre aquilo que o cínico considera um juízo de valor, que ele pode fazer com os outros quando lhes atira com a sua jeitosa argumentação, mas que recusa quando a mesma argumentação se lhe digire. A sua, vida, oralidade, capacidade, é sempre melhor do que a dos outros, e perante a possibilidade de o demonstrar, fá-lo, esquecido de si próprio, como um verdadeiro dom quixote das causas alheias (ou pessoais). Sendo, contudo, ele mesmo outro e não um qualquer ser invertebrado - apesar da falta de espinha dorsal -, acaba por pertencer à mesma ordem de grandeza das pessoas e princípios de que recusa ser partícipe, e ao querer frisar tão pertinente distância desses mesmos a quem diz, ampliando o tom de voz, ter a certeza absoluta de tudo e mais alguma coisa, ao fazê-lo com a veemência que sabe fazer perdurar a sua bestialidade, finalmente, expõe-se como alguém que adapta os argumentos da razão aos seus próprios interesses e razões, ou melhor, ao discurso cínico fundamentado, que o é, porque sabe bem como nunca oficializar a sua ignorância, pelo contrário, é bastante mais agradável poder exibir-se, recusando o conflito, deixando a marejar a vontade que os não-cínicos têm de o arrumar com uma frase. O cínico esquece, contudo, que não está sozinho no mundo, e que as forças da Natureza, se não outras, o vão meter (literalmente) no lugar onde o cinismo merece estar: no espaço da sua extinção.
© Ruben P. Ferreira

 

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