Outra vez Lisboa e o seu porto




Parece-me pertinente voltar a referir a futura edição de «Lisboa 2050 - Estudo de possibilidades de intervenção no Estuário do Tejo» , uma vez que as negociatas sobre a ampliação do Porto de Lisboa estão aí, e em grande estilo. Portanto, convém esclarecer os leigos que Lisboa necessitará certamente de um porto eficaz no futuro, de um NOVO porto eficiente, não de uma estrutura atarracada que retira às pessoas a possibilidade de conviver com o rio. Cito uma parte de um texto escito a propósito da «Estratégia Global», apresentada nesta maqueta de livro, projecto académico liderado pelos Arquitectos João Luís Carrilho da Graça, Inês Lobo e José Adrião, concretizada pelos alunos finalistas do curso de Mestrado em Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) no ano lectivo 2006-2007, entregue a concurso na Trienal de Arquitectura de Lisboa e distinguida pelo júri com o primeiro prémio, texto esse que foi publicado no boletim AML Estuarium [publicação periódica da Área Metropolitana de Lisboa - AML), e que pode ser lido na íntegra aqui, a partir da página 27:
«Ao contrário de outras áreas metropolitanas, que incluem cidades como São Paulo, Los Angeles ou Madrid, a AML (abrangendo um território desde Mafra a Setúbal, com cerca de três milhões de habitantes), tem as suas actividades e usos dispersos, desconexos uns dos outros. Cada concelho estrutura o seu tecido urbano isolado do outro, com as suas infra-estruturas e actividades económicas próprias. Por vezes, repetindo as mesmas situações e os mesmos erros.
Urge reconhecer qual a zona de influência da área metropolitana e qual a sua actividade económica principal. Ao observar-se a totalidade do rio, cerceada pela ocupação de algumas das suas margens com actividades afectas ao Porto de Lisboa, pois estão na sua jurisdição [parte dessa ocupação, entretanto, 'desafectada'], considerou-se fundamental abordar o problema da localização desse porto.
Percebeu-se que a transferência para outra zona do estuário, ou até para outro estuário ou zona costeira, seria menos lesiva para Lisboa do que a sua manutenção, pois assim libertaria muitos dos espaços actualmente ocupados, que oferecem uma relação privilegiada com o rio. Simultaneamente, tornaria essa estrutura mais eficaz e precisa no desempenho das suas funções e nas conexões com as infra-estruturas viárais e ferroviárias territoriais que lhe são vitais, e na relação fundamental com a Europa, África e os Estados Unidos da América.»
As opiniões a respeito desta opção diferem. No programa «Prós e Contras» de ontem, exibido na RTP1, Miguel Sousa Tavares e Gonçalo Ribeiro Telles (que serviu de consultor à «Estratégia Global» do livro «Lisboa 2050») foram os únicos a defender os interesses dos cidadãos e do território, respectivamente, lembrando que as pessoas gostam do rio, e querem vê-lo, e que o Vale de Alcântara deve ser tudo menos aquilo que lá está agora, ou aquilo que está previsto na recente proposta de ampliação do porto. Disse-se à boca cheia que aquela era uma solução relativa 'a um pensamento a longo prazo', para depois se perceber que é apenas um recurso estratégico para combater uma necessidade premente, e que tem tudo para fracassar, a grandes custas. Toda a gente manifestou opinião sobre tudo, a maior parte dela até muito assertiva, mas poucos foram os que estudaram verdadeiramente o assunto, ou que são parte desinteressada na matéria em discussão. Mais uma vez, o cinismo e o histerirsmo militante, a arrogância e a parvoíce, imperaram. Portanto, Miguel Sousa Tavares, se quiser um livro destes, é só pedir, que se lhe fará chegar, pois fundamenta com factos, números e propostas uma 'estratégia' para a Área Metropolitana.
Sobre a publicação do mesmo, gostaria de contar um episódio interessante. Se no início daquele trabalho, tínhamos quase garantido o apoio financeiro da Associação do Porto de Lisboa (APL) para a sua edição e publicação, uma vez que aquela entidade tinha interesse em apresentar propostas ao Governo para a ampliação do Porto de Lisboa, no final, depois de definido no projecto da «Estratégia Global» que o melhor era construir um novo porto na entrada da barra de Lisboa, menos lesivo dos interesses da cidade, resolvendo igualmente parte dos problemas das praias da Costa da Caparica, aquele «apoio» esfumou-se. Desapareceu. O livro está aí a aguardar patrocínios que o encaminhem para as prateleiras das livrarias. [RPF]

 

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