O Campo e a Cidade 2




«O senhor David Hume, que muito aprendeu decerto com os seus passeios nos campos de Edimburgo, entendeu que o lugar dum cavalheiro é na cidade. Mas do campo fez uma espécie de de regime escolar de que aproveitou pela vida fora. A memória elabora o melhor das artes; a imaginação só as respeita quando as não perturba.
Até a oratória, que foi tão admirada como arte entre os gregos, deve a sua elegância e eficácia à ciência da memória que filtra o ilimitado. A poesia, a mais pura, não se apresenta com ornamentos porque, como a voz dos oráculos, surge directamente do seio da natureza. Diz-se que a natureza gosta de se ocultar. É por isso, decerto, que os jovens recebem dela um sopro obscuro que na memória se transforma em excelentes obras. Quando Leonardo da Vinci pintou as suas obras-primas, já tinha diante os bosques umbrosos da sua terra florentina e sobre ela pintou as famosas Virgens - a do Rochedo, ou a Gioconda, essa velha Virgem cujo filho cresceu e já não lhe cabe nos braços.»

[de «Contemplação Carinhosa da Angústia», Agustina Bessa-Luís, Selecção e Introdução e Pedro Mexia, Guimarães Editores, Lisboa, pag. 179]

[Ruben P. Ferreira]

 

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