Um médico disse-me uma vez, «você tem um problema eminentemente social, não clínico». Sorri. O problema [clínico] afinal era apenas uma desculpa e todo aquele diálogo fruto da ficção narrativa das mãos de um belíssimo guionista. Claro que lhe respondi: «você não tem que fazer juízos de valor sobre a moral dos nossos actos, nem é da minha responsabilidade analisá-los e discuti-los consigo.» É interessante que um diálogo começe justificado por uma simples folha de papel, e que acabe sobre a dimensão moral das acções das pessoas no mundo. Melhor ainda, é existirem médicos que apreciam despejar em cima dos seus pacientes toda a carga filosófica que a burocracia dos seus actos exige e denuncia. Mais valia não serem médicos, mas opinadores. Ou, simplesmente, escritores de livros de auto-ajuda para nos ensinarem a lidar com a classe médica sem perdermos completamente a paciência. [RPF]
