O Campo e a Cidade 1



«O senhor David Hume, filósofo inglês que teve a particularidade rara de ser muito querido dos franceses, disse que um dia decidiu sair do campo e instalar-se na cidade porque o espírito progride em contacto com o meio urbano. O espírito de competição é animado pela qualidade de uma exigência de vida que, nós sabemos, se encontra na cidade. É lá que tudo chega, como diz Balzac; e, também como ele diz, é na província que tudo acontece.
Quem não teve uma relação profunda com o campo fica de certo modo desacompanhado da memória. Terá que produzir tudo com auxílio da memória; e a imaginação é sempre mais precária e mais débil.
Ao crescerem os centros urbanos, ao criar-se a uniformidade dos costumes, podemos estar certos de que isso vai contribuir para que os genes da criação literária e artística se atrofiem. A natureza está ligada ao rito criador; a imaginação não a pode igualar.»

[de «Contemplação Carinhosa da Angústia», Agustina Bessa-Luís, Selecção e Introdução e Pedro Mexia, Guimarães Editores, Lisboa, pag. 177]

[Ruben P. Ferreira]

 

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