Paixões educativas



Lançado recentemente, esta «História Desatinada de Portugal», de Luís Mascarenhas Gaivão, professor, revela, de uma maneira bastante credível, como são os alunos das escolas portuguesas de hoje. Luís Gaivão decidiu então pegar em algumas das mais emblemáticas frases que os seus 'pupilos' escrevinharam em testes e exames, tendo compilado (que bela palavra) uma espécie de glossário das barbaridades. Ou, pelo menos, do que alguns deles pensam sobre o mundo, a vida, a cultura, a religião, a História, entre temática diversa. Lemos este livro como se estivéssemos a assistir, incrédulos, à decadência do sistema de ensino, como se isso fosse possível, vejam lá, que horror, pensar na hipótese, que caia aqui um raio para nos fazer ver a luz ao fundo do túnel. Deixarei à consideração as passagens mais divertidas. É que a ignorância, quando atinge certas latitudes, até consegue fazer-nos rir, para esquecermos de uma vez que o facilitismo foi instalado como barómetro de avaliação dos alunos. Aqui vão.
À pergunta sobre quem foi Maomé, alguém respondeu:
«Foi o primeiro deus a pregar virado para Meca»; e também, «o director do Islamismo.»
Mas bom, bom, e sobre a doutrina do islamismo, é este sábio comentário:
«A religião muçulmana ou islamita teve a sua origem na Islâmia.» Presumo que seja um país onde seja difícil chegar.
Sobre o Reino de Portugal e a Idade Média, e acerca dos concelhos rurais e urbanos, uma pérola de grande calibre (de realçar a capacidade criativa):
«Uma parte do povo trabalhava na terra dos senhores, mas existiam outros locais onde o povo viva melhor e com mais liberdade, eram os juízos ou concelhos. Nos concelhos rurais os seus habitantes trabalhavam sobretudo na nobreza, mas nos concelhos urbanos a sua população dedicava-se, também, à nobreza e ainda à burguesia e também ao clero e ao litoral. Todos eles eram criados através de uma produção artesanal, vulgarmente chamada burguesia, dada pelo rei através de um documento. Este documento continha os homens-bons e as feiras, que passavam a existir entre o senhor e os moradores. Estes passavam a ter algumas liberdades como, por exemplo, terem litoral e escolherem quem trataria dos assuntos de interesse geral, os chamados produtores artesanais.»
A respeito dos Descobrimentos, Conquistas e Navegações, a diferença entre os significados de conquista e descoberta: «conquista é conquistar alguma terra e descobrir é descobrir alguma coisa que nunca foi descoberta.» Peremptório q.b..
Sobre o Brasil e os membros da Companhia de Jesus: «Eram os ajudadores de Jesus»; e eram, «um tipo de padres dece tempo e eram de religião cristã.» Aprecio especialmente o «dece».
Quanto às Consequências sociais dos Descobrimentos, e aos hábitos luxuosos dos poderosos: «Tinham banquetes de alta qualidade e espectáculos, as salas tinham paredes feitas de cedro e tinham uma vida de luxo, boa e sem dificuldades.» Um reconhecimento de que, na época, o gourmet já era um dado adquirido.
A propósito das Invasões francesas: «Os motivos que levaram Napoleão a realizar três tentativas de invadir Portugal foram: porque a 1ª não deu resultado, fizeram a segunda que não deu resultado e a terceira que também não deu resultado»; sobre o motivo da invasão, «não concordo porque se Portugal não queria, eu não insistia.» Um toque 'emocional' digno de um seguidor confesso dos 'Morangos com Açúcar'.
Acerca dos Melhoramentos nas comunicações e transportes: «Um telégrafo era o que antigamente se utilizava para mandar mensagens a pessoas que não se podiam encontrar»; ou, «O telégrafo é uma máquina para comunicar por toques»; e ainda, «Era um telefone que produzia pequenos sons, por exemplo (pip).» Liminar e parvo.
Tema incontornável, a ditadura, bem, a ditadura e Salazar remetem o imaginário do aluno português para um plano de absoluto delírio: «É uma ideia que é sempre igual»; também, «É quando são feitas eleições para eleger um Presidente da República»; e o clássico: «O Estado Novo por um lado era bom, porque era exigente»; com adaptação,
«era uma grande barbosidade.»
Last but not least, a respeito do 25 de Abril e das razões para ter acontecido: «para dizer adeus à ditadura e olá à liberdade»; sobre o Poder Local e a Criação de Municípios e Juntas de Freguesia, tudo visto pelos olhos de quem está esclarecido: «Município é o que ordena um Concelho»; e, por último, «Junta de Freguesia é tipo uma camera e serve para ajudar a freguesia.» Belíssimo. Com alunos destes, o futuro do Humor está assegurado. [RPF]

[excertos citados de «História Desatinada de Portugal», de Luís Mascarenhas Gaivão,
Publicações Europa-América, Lisboa 2008]

 

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