Uma história por dia 44

«Tenho medo de que alguns dos meus pensamentos se transformem em realidade. Quer dizer, não é tanto o pensamento, mas mais a coisa pensada. Como, por exemplo, pode acontecer-me pensar que, acidentalmente, cortei a cabeça a com uma serra. Vejo a cena. Em pensamento. O pensamento origina este quadro: (Cabeça caindo. Pescoço sangrando. E para ali estou eu. Desamparado, no meio de um campo. Debaixo de um carvalho. A minha serra pairando por cima de mim. Cotovias cantam. Um tordo pousa na árvore. A serra recua repentinamente na minha direcção e corta-me a cabeça.) Abano com a cabeça a digo para mim mesmo, «Não! Não tenha pensamentos destes! Podem tornar-se realidade.» Por vezes o pensamento desaparece quando digo isto. Mas, muitas vezes, regressa. E, muitas vezes, regressa numa versão diferente do pensamento original. Como, por exemplo, da próxima vez, há-de voltar assim: (Ali estou eu. Desamparado, no meio de um campo. Sob um carvalho. A minha serra vermelha pairando por cima de mim. Uma cotovia canta, ao longe. Um falcão voa, a grande altitude, em círculos. Um cão ladra. A serra recua repentinamente na minha direcção e amputa-me o braço.)
Se acontece eu estar a trabalhar com uma serra e este tipo de pensamento aparece, sinto uma superstição imediata a propósito dos elementos do pensamento que têm a ver com a acção da serra amputando diferentes partes do meu corpo. Por exemplo, se, na realidade, um tordo pouca na árvore em que estou a trabalhar ou um falcão plana lá de cima, ou um cão ladra, ou uma cotovia canta, imediatamente começo a pensar que estes elementos constituem maus agouros. Páro de trabalhar com a serra. Sento-me quietinho debaixo do carvalho e tento descontrair-me. Aí, começo a ficar com medo, não tanto das consequências do pensamento como do próprio pensamento. Começo a fazer votos para que o pensamento não regresse. Luto contra isso. Tentando fechar-lhe as portas. Então, ganho um pouco de coragem e sigo a direcção oposta. Trato de enfrentar o pensamento. Convido-o a entrar: (Para aqui estou eu, sentado sob o carvalho, chamando um perigoso pensamento. Cotovias cantam. Uma vaca muge. Um tordo pousa na estaca de uma cerca. O pensamento irrompe. Estrondo de motores. Sangue e tripas. A minha cabeça cortada. Começo a ficar tenso. Então limito-me a observar a cena. Como se estivesse a ver um filme. Agora, as coisas começam a mudar de feição. As coisas funcionam por si mesmas, separadas. Ausentes, longe. A vida desaparece delas. O filme no écran dissolve-se. Aqui estou. Sentado. Sem um único pensamento na cabeça. Cotovias cantam. Um tordo pousa numa estaca da cerca. Cão ladra. Vaca muge. Pavão grita. Autocarro passa. Gato mia. Serra rosna ao longe.)
31/3/81
Santa Rosa, Ca
[«Crónicas Americanas», ©Sam Shepard, Difel, pag. 109-111]
[Ruben P. Ferreira]

 

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