Toma lá e embrulha



Portugal foi outra vez derrotado pelo Brasil, com um score expressivo (6-2), e Queiroz «assumiu a responsabilidade» do resultado. Mas, qual responsabilidade é que aquela alma tinha de assumir? Ai Queiroz, Queiroz. Onde é que eu já vi este filme? Terá sido em Espanha? Em Portugal, há mais de uma década? A História tem, de facto, tendência a repetir-se. De repente, estou a ver um jogo da selecção portuguesa e começo a pensar no Real Madrid. Ou nos comentários de Queiroz a um canal de televisão depois de um jogo particularmente difícil, em que referiu que «a podridão» tinha de acabar de vez, e que nos foram tão bem recordados por alguns canais quando assumiu recentemente, e pela segunda vez, o comando da selecção das quinas. Ingénuo rapaz. O problema é que Queiroz é boa pessoa. É um homem com princípios e espinha dorsal. Provavelmente, por ser tão bom homem, só pode ser adjunto, porque os adjuntos são os treinadores preferidos dos jogadores. São os apaziguadores de serviço.
Fergunson fica varado com a prestação de Cristiano Ronaldo e Nani, porque tiveram uma noite mais exigente, beberam uns copos e, enfim, naquele dia não estão para ali virados, querem é «caminha» (uma frase de que gostei muito). E o inglês não está de modas, vai daí e começa a estrebuchar com uma violência abstrusa, a ponto de Cristiano, Nani e respectivos comparsas passarem a correr de fininho, a deixar o rasto marcado na relva, não vá o salário ao final do mês ser reduzido pela metade. Isto acontece nos treinos, porque nos jogos, bem, nos jogos Fergunson esbofeteia cada jogador individualmente antes de cada partida - penso que José Mourinho fará o mesmo. «Tu, toma lá [paf], vê se corres a direito [paf], vê se rematas à baliza [paf], nada de deslumbres [paf], ou comes mais, estás a ouvir [paf], hã, meu menino?» [paf] Estou a imaginar um rol de insultos ditos em inglês impecável e articulado. O idioma aqui é o menos importante, o que importa mesmo é a atitude, a agitação, a certeza de que se os jogadores não correrem e fizerem o que lhes pagam rios de dinheiro para fazer, sujeitam-se a que o treinador lhes pegue tosse convulsa, por castigo, só porque lhe apeteceu vingar o triste resultado ou a miserável prestação no relvado.
Carlos Queiroz é o homem da rectaguarda que aplica 'paninhos quentes', é aquele ser que vai ter com os jogadores depois de Fergunson lhes falar agressivamente, que se lhes dirige com carinho e simpatia, a tentar criar uma «ponte» de entendimento entre o treinador principal e os jogadores vedetas. A dar-lhes festinhas na cabeça e caldos de galinha à boca, como uma mãe faz a um filho depois do pai lhe dar um raspanete, a dizer-lhes, «pronto, vá lá, não fiquem tristes, aquilo passa-lhe, no fundo ele até gosta de vocês». Em Madrid foi o que se viu. As estrelas faziam o que queriam e o Dr. Carlos lá tentava reunir os egos, esforçava-se, profissional, com sentimento e amor, apresentava as folhas de papel A4 com as estatísticas, dizia-lhes com calma e temperamento, «vejam lá, têm de correr mais, é melhor serem menos individualistas, passar a bola uns aos outros, assim não vamos conseguir, é preciso empenho, garra», e etc., e os meninos a pensarem como será a noite de amanhã, no rol de romarias às lojas de marca com as esposas e namoradas, nos chorudos contratos de publicidade, na casa que vão comprar na Riviera Francesa, na boa vida.
Como aqueles meninos que ontem perderam o jogo com o Brasil, e que tiveram direito a avião fretado expressamente para o efeito - à partida, mau prenúncio do que poderia acontecer. Tivessem apanhado um vôo regular e sido sujeitos aos procedimentos de partida normais, e ao jet leg do comum dos mortais e queria ver como era. Mas não, tinham de ir de rabo tremido, para não se cansarem e estarem 'aptos'. Portanto, Carlos Queiroz não tem culpa de ser tão boa pessoa e tão bom treinador, e de isso o condicionar a uma carreira 'adjunta' como treinador de futebol. O homem é assim e merece respeito. Querendo, só precisa que o ensinem a dar estalos sem deixar marcas. Alguém pode tomar a iniciativa?
Tivesse ele feito como Paulo Bento fez quando assumiu os comandos da equipa sportinguista, e os últimos jogos da selecção teriam corrido melhor. Aquela voz, aquele timbre certeiro, fundo, de um espanholês relativo, e a raça. Imagine-se Paulo Bento a deixar de ser jogador, estou mesmo a vê-lo chegar à sala onde vai decorrer a apresentação à equipa, tudo à vontade, para alguns é um ex-colega, para outros é da casa, e um dos antigos companheiros diz-lhe em tom intimista, a dar-lhe uma cotovelada amiga e cúmplice, «Então, Paulo, estás bom?», e o homem responde-lhe, ah se responde, «Então Paulo, estás bom, oh meu pi, pi, mas com quem é que pensas estar a falar, pi, tu queres ver que temos de nos chatear a sério, pi, deves pensar que por termos jogado à bola juntos já somos amigos e companheiros, queres ver, pi, hã, pi, e nos tratamos pela primeira pessoa do singular e tudo, pi, olha que não me tratas pela primeira pessoa do singular pá, aqui baixas a bola comó os outros, pi, estás a perceber bem, pi [o dedo em riste], e para ti e para todos, deixo já o aviso, tratam-me pelo título, por Senhor Paulo Bento, pi, percebem, ou Mister, que também aprecio, pi?» E nos jogos? «Oh seus pi, podem correr ou não, pi, toca a mexer, pi, se quiserem andar vão passear para o centro comercial, estão a ouvir, pi, toca a marcar golos oh Moutinho, vê lá se queres que diga aos ingleses que és um choninhas que faz publicidade a condomínios privados com piscina?»
Meus meninos? Têm de perceber? Que temos de ganhar o jogo? Vá lá, tenham calma? Tenham paciência? Vcoês são muito bons jogadores de futebol? Leram os dossiers que vos deixei ontem de manhã em cima da cama? Não me digam que estiveram a jogar PlayStation e se esqueceram? Pronto, não chorem mais, não se sintam pressionados? Coragem que vocês são tão bons como eles? Palavras vãs para mentes que só podem ser estimuladas, digamos, à «Paulada» (trocadilho fácil, mas apropriado), ou à «Mourinhada» (para seguir a mesma lógica). Queiroz tem de pedir um estágio de três meses a José Mourinho. Três meses de reabilitação e lavagem cerebral. Depois da temporada em Milão, pode ser que tenha entendido a mensagem e aprendido a lição.
Com jogadores de futebol a simpatia é um excesso. Uma palermice. Tem de se ser bruto e mal disposto, cuspir para o chão e incentivar as hostes com uma gramática poderosa. O uso de interjeições elaboradas, expressões enfáticas de significado dúbio, adjectivação palavrosa e frases excessivamente pontuadas, com mais de duas linhas sem pontos finais, com vírgulas, está fora de questão. Queiroz tem de simplificar e ser directo. Assumir a responsabilidade e reduzir o vocabulário ao vernáculo mais puro. Tem de ser simples e deixar as estatísticas, os gráficos do excell, e as expressões de entendimento e mútuo acordo para o foro doméstico. O melhor é substituir o sorriso fácil pelo mais circunspecto dos esgares. Resumindo, Queiroz tem de por os jogadores na linha, de os fazer perceber a crueldade dos factos e perder a mania de ser cordato, maternal e de oferecer palmadinhas nas costas a quem decidiu passear pela grama. Cada perda de bola deverá, a partir de agora, ser premiada com uma sapa dada à homem. Com brutalidade.
Por último, assumir as responsabilidades por um grupo de trabalho faz-se depois de jogos a sério e de derrotas que levam a equipa mais cedo para casa. Infelizmente, Queiroz está a acusar a pressão. Deve estar arrependido por não ter renovado um contrato milionário com o Manchester United. Conhece bem os portuguseses, sabe do que a casa gasta, sabe que, ao contrário do que acontecia com Scolare, consigo, o pavio é curto. Importantíssimo, compreende que os jogadores gostam dele e o preferem a um treinador enfurecido pelas piores razões, por perceberem que com ele estão à vontadinha. O seu sucesso dependerá do grau de má disposição que conseguir demonstrar. Não basta ser rigoroso, tem também de cultivar mau feitio. Só que Carlos Queiroz é um paz de alma. E o resultado está à vista. [RPF]

 

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