Uma história por dia 38

«Havia black-out em Oaxaca na noite em que chegaram. Velas iluminavam as recepções dos hotéis. Não havia quartos.
Lá acabaram por encontrar um quarto num tal Hotel Nacionale, na parte norte da cidade. As portas dos quartos tinham grades metálicas verticais, como se fossem celas de prisões de pequenas cidades, como as que ele tinha visto em Montana. Ao subirem as escadas com as bagagens, viam perfeitamente os ocupantes de cada quarto. Os clientes do hotel pareciam ser, na sua maior parte, vagabundos e alcoólicos - esbodegados pelo chão, meio caídos dos colchões cheios de nódoas, encostados pelos cantos, olhando fixamente, com um ar profundamente ausente, para o chão de cimento.
Fecharam a toda a pressa a porta, esconderam as malas debaixo da cama e procuraram freneticamente a casa de banho. Não havia casa de banho. Apenas um lavatório a um canto. Revezaram-se para utilizarem o lavatório e deitarem fora tudo o que tinham no estômago, rigorosamente tudo. De repente, desataram a rir da situação, mas acharam que deviam deixar de rir, dado que os outros, que tanto sofriam nas suas celas, podiam pensar que estavam a gozar com eles.
Mantiveram o mesmo esquema toda a noite, sem esperança de alívio, ficando um deitado no colchão, enquanto o outro escancarava as goelas sobre o lavatório. Às vezes, uma ia vomitar enquanto o outro tentava rever o vómito. Por vezes, vomitavam os dois juntos, o que os fazia rir ainda mais, ao ponto de ficarem com medo de sufocarem com o próprio vomitado.
Deixaram a luz azul da vela arder toda a noite, junto à janela. Na rua, explodiam foguetes. Ouviram miúdos a correr. Quetzais numa palração gritada nas palmeiras. Os hóspedes gemiam e gritavam em espanhol para ninguém em especial.
Pararam de rir passado um bocado e deixaram-se ficar a descansar sobre o colchão, olhando absortos para o estuque remendado do tecto. Remendos húmidos onde as águas das canalizações se tinham infiltrado. Estavam ambos com arrepios de frio. Não falavam. Ele pensava numa sala de bilhares chamada Julian's, na rua 14. Ela estava com medo de morrer, ali.

6/9/80
San Rafael, Ca
[«Crónicas Americanas», ©Sam Shepard, Difel, pag. 90,91]

[Ruben P. Ferreira]

 

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