Uma história por dia 42

«Esta é uma noite de crime. Polícias espalham-se pelas ruas - a caça ao homem aquece. A lua assustadoramente cheia. Os que dormem sonham com tiros. As sirenes tecem caminho ao longo das múltiplas ruas.
Muito longe, numa cozinha, uma mulher vê-se em apuros, por causa de um homem. Ela está assustada, as coisas estão a ficar azedas. Ele está bêbedo e as coisas estão a ficar negras. Ele já fez um buraco na porta de entrada, do tamanho de uma bola de demolir prédios. Farrapos de papel de parede esvoaçam. A noite apanha-os na sua rede. Nenhum grito será ouvido, porque ninguém o poderá ouvir. Nenhum telefone. Nenhum carro - ele tem as chaves. Ela vê-o estremecer de raiva. A sua própria raiva. Uma raiva que não se sabe de onde vem. Ela vê-o mexer nervosamente nos cartuchos verdes da espingarda. Então, precipita-se para o buraco na porta. Ele cai de bôrco. Ela vê-se desamparada, perdida, no curral. Descalça. Afunda os pés até aos joelhos no esterco e na lama. Ouve um tiro que vem do alpendre. Supõe que vai sentir a bala dentro dela. Não, nada. Arranca as pernas da lama com ambas as mãos. Ruma em direcção à luz na colina. Não consegue lembrar-se se a luz é luz de gente ou se de algum celeiro. Uma luz é melhor que nenhuma, pensa. Qualquer luz é melhor que a noite escura. Tropeça nos fundos sulcos dos arados. Rasga o seu caminho. Qualquer luz é melhor que a noite escura.


18/1/80
Petaluma,Ca


[«Crónicas Americanas», ©Sam Shepard, Difel, pag. 106,107]


[Ruben P. Ferreira]


 

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