Uma história por dia 37

«Surpreende-me a minha própria nostalgia por tempos de que tenho apenas escassas recordações. Nunca me vejo a viver nos anos quarenta. Os anos quarenta, reservo-os para a geração dos meus pais e para os pilotos de blusões de cabedal, com golas de pele, sorridentes, aos comandos dos seus aviões.
Por vezes há breves instantes que se dilatam, quando passo pela cozinha e o sol ilumina uma determinada cor das paredes. Caio numa fantasia em tons de azul pastel, de um tempo em que havia vacas leiteiras, muito pouca gente, e todas as pessoas se conheciam umas às outras, numa pequena aldeia americana isolada. Velhas que raramente saem de casa. Velhas a quem faço recados. Um papagaio ainda mais velho que as mulheres. Um cavalo chamado «Negro». Um Chrysler cinzento com os assentos cobertos por um tecido axadrezado. Folhas de sicómoros do tamanho do meu peito. Uma estampa colada aos pés da minha cama, com um rapaz que vende leite, todo vestido de branco, com um boné de pala preta, carregando uma grade de arame, cheia de garrafas de leite. Um cheiro a mulheres. Todas velhas. O cheiro de mulheres velhas em tudo. Nos móveis. Na despensa. Nas gavetas, misturado com o cheiro da madeira. A imagem da minha tia morta, sentada muito direita, uma candeia iluminando-a à altura dos ombros, a mão flácida sobre o colo. Os seus joelhos sempre me intrigaram. Mesmo na morte os joelhos dela pareciam jovens e parecia «errado» que eles parecessem jovens. Sentia-me atraído pelos seus joelhos. Brutalmente atraído. A quase transparência que ganhavam na parte mais saliente, quando ela cruzavaas pernas e as meias de seda cinzenta comprimiam a carne junto aos joelhos. Detestava, porém, os seus pés. Montinhos de carne que saíam, como erupções dos sapatos apertados. Dizia ela que era um inchaço causado pelo tempo húmido, mas eu bem via que o que, por isso, os apertava nos sapatos. Mitologias de uma dedicada Betty Boop. Era esta contradição entre os seus pés e os seus joelhos que le levava a ver contradições mais vastas em mim mesmo. Mais tarde, agradeci secretamente aos seus pés por me terem permitido isso.
Fiz-me à chuva. Afastei-me para muito longe das pessoas, sob o encanto das aroeiras e dos camarões cor de púrpura. Pesquei bolas de golfe às riscas vermelhas dos buracos que o seu próprio impacto tinha feito na lama. Lembro-me da excitação da descoberta de que eu tinha algo a ver com o facto de aquilo ter sido perdido por uma outra pessoa. Havia um ponto de contacto entre mim e o facto de aquilo ter sido indubitavelmente perdido. Alguma pessoa, que eu nunca tinha visto, tinha lançado aquelas bolas no descampado e nunca olhos humanos as tinham visto desde então. Coatis tinham andado por cima delas, gaios tinham vasculhado à volta, esquilos tinham tentado desenterrá-las, mas ali estava eu, o primeiro ser humano a dar com elas, a arrancá-las com o polegar, a lavá-las bem lavadas na corrente do rio e a vendê-las a um idiota qualquer do Clube por um dólar. Quem sabe se não será o mesmo idiota que as perdeu. Bem vejo a sofrida culpabilidade do reconhecimento nos seus olhos.
Estes eram os tempos em que eu devo ter sido pequeno, pois todos os rostos parecem maiores do que é normal.

21/12/79
Homestead Valley, Ca

[«Crónicas Americanas», ©Sam Shepard, Difel, pag. 87-89]

[Ruben P. Ferreira]

 

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