Venha a mira técnica


É meio-dia e meia e ligo a televisão nos três canais generalistas. Na RTP1, um jovem artista 'passeia' pelo espaço da sua exposição com um perguntador de serviço, que fala em tom sentimental, baixinho, baixinho. É o que se chama, um «exterior». O rapaz teve leucemia e venceu a doença. Está a revelar como respondendo à vontade. Quando interrogado, «Como consegiu?», assegura, «Com muito mimo.»
Na SIC, Fátima Lopes segura o livro escrito por um miúdo a sair da adolescência (a meias com alguém que faz da escrita profissão). A razão? O «Punch-line»? O miúdo nasceu sem mãos, com dois cotos. Afiança que sentir-se-ia chocado se tivesse um filho «assim», mas teve de fazer pela vida -- isto também diz muito do que as editoras andam a publicar. Lembra o slogan, «se eu não gostar de mim, quem gostará?». Pela certa, vê muita televisão. O tempo passa e FL continua a ler passagens da 'obra', assegurando ao rapaz que ele deveria ler o seu próprio livro (pois confessou não o ter feito), para concretizar a «catarse».
Na TVI, mais do mesmo. Uma mulher com cerca de sessenta anos fala, aliás, grita, a razão de num determinado dia ter-se sujeito à espera de quarenta minutos para entrar em directo, e ao telefone, no programa da manhã da estação. O marido estava a ser entrevistado, e ela queria esclarecer o auditório das mentiras que o senhor estava a proferir. Como diz o povo, queria por 'os pontos nos is'. A TVI fez-lhe a vontade e, melhor, convidou-a para o programa que estava a decorrer, em que, reparem bem no mimo, a idosa pôde confrontar-se à larga com o ex-marido e contar novamente a sua versão dos acontecimentos, enquanto as câmaras filmaram o desastre (se tudo correu como previsto) e as audiências, dizem os especialistas, dispararam. Realço o detalhe escabroso quando, a dado momento, ela reverbera, «ele sabia que eu e os meus chunhados e a minha sobrinha, que não fala com os pais, íamos lá». Desliguei. A bem da sanidade mental.
À tarde serão os «shows» de idêntico mau-gosto e despudor, a oferecer dinheiro a rodos e a pedir encarecidamente ao auditório que ligue o número de telefone que passa em rodapé nos televisores. Idênticos apresentadores com raro ou nenhum talento disputarão o prémio para a melhor performance, não interessa se os programas têm maus conteúdos, a maralha gosta. Mais tarde, serão os concursos, os telejornais de puro entretenimento -- não de notícias e factos concretos revelados se um modo sábio e correcto --, e, por fim, as novelas. Pela madrugada, uma ou outra série interessante passará a desoras. Tem sido assim, pelo menos, durante a última década.
Os programadores afirmam que esta espécie de comentário é elitista e desnecessário, que o povo tem o que o povo gosta. Que as «elites intelectuais», palavras deles, só sabem dizer mal. Pudera. A verdade é que os programadores e directores de serviço dos três canais de televisão têm, regra geral, uma noção muito particular da realidade. Penso até que desconhecem o país em que vivem ou, se o conhecem, gostam sobretudo de fazer alarde daquilo que é básico e lamentável. Há justificação para, todos os dias, a toda a hora e instante, sermos bombardeados com a exploração vergonhosa do desgosto dos outros, referida como assunto e tema que não se pode perder (a morte, a violência doméstica, as deficiências físicas), apenas para encher espaço de grelha, com o intuito de se fazer «serviço público»? Isto de uma forma que resvala a maior parte do tempo para a exibição de sentimentos, para o sentimentalismo fácil? Para o psicologismo do senso comum? É isto que mostra o país que temos, ou é um sintoma da distância que directores e programadores apreciam manter dos pobres de espírito?
A existir «serviço público», deveria ser realizado com conta, peso e medida. Mas o que se tem feito não é serviço público. A frequência invasiva, perturbante e confrangedora da exibição destes programas de televisão de péssimo gosto, com gente que aparece bonita e maquilhada a liderar a condução das emisões -- e das capas das ditas revistas do «social» --, que em casa desdiz da sua própria prestação, daquilo que se predispõe a fazer, e que em frente às câmaras pensa, «vamos lá, é um dia igual aos outros, daqui a duas horas está tudo acabado, e é bem pago», serve nenhum propósito senão o de encher as estações de dinheiro da publicidade. É outra «malandragem» a fazer pela vida. Haja pachorra para tanta 'pescadinha de rabo na boca'. [RPF]

 

Quantcast