Apego artístico -- conceitos

«Ao disparate liga-se também o cómico pedante: consiste em conceder pouca confiança ao seu próprio entendimento, e por consequência em não poder permitir-lhe distinguir imediatamente o que é justo num caso particular; em colocá-lo então sob a tutela da razão, e servir-se dela em todas as ocasiões, isto é, partir sempre de conceitos gerais ou de máximas, e a conformar-se com elas rigorosamente, na vida, na arte, e mesmo na conduta moral. Daí esse apego do pedante pela forma, as maneiras, as expressões e as palavras, que ocupam nele o lugar da realidade, das coisas. Então, em breve aparece a discordância entre o conceito e a realidade; então vê-se que o conceito não desce nunca ao particular, e que a sua generalidade, ao mesmo tempo que a sua determinação tão precisa, não lhe permitem ajustar-se aos ténues cambiantes e às múltiplas modficiações do real. É por isso que o pedante, com as suas máximas gerais, é quase sempre apanhado de surpresa na vida; ele é imprudente, tolo e inútil. Em arte, em que as ideias gerais não têm nada a fazer, ele produz obras falhadas, sem vida, rígidas, amaneiradas. Mesmo em moral, em vão se forma o projecto de ser probo ou generoso, não se pode nunca realizá-lo com máximas abstractas, tanto dá resultados falsos, porque essas máximas só convêm a metade, tanto é impraticável, porque elas são estranhas ao carácter individual daquele que age e o carácter não se deixa nunca enganar completamente: e daí as inconsequências.»
[«O Mundo como Vontade e Representação», Schopenhauer, Apresentação M. F. Sá Correia, Rés-Editora, Madrid-Lisboa, Colecção Os Grandes Filósofos, Vol. 17, pag. 116-117]
[Ruben P. Ferreira]

 

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