Colóquio-Letras -- Nova Direcção

Nuno Júdice, ensaísta, poeta, ficcionista e professor universitário, tendo desempenhado, em Paris, os cargos de conselheiro cultural da embaixada portuguesa e delegado do Instituto Camões, é o novo director da Revista Colóquio-Letras. Porquê? «De modo a garantir a sua publicação regular e os compromissos assumidos perante o público e os assinantes.» Para quem tinha dúvdias sobre a problemática 'gestão' da publicação, ficou o esclarecimento pelo comunicado. O conselho editorial será presidido por Eduardo Lourenço. Com esta decisão, o Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian acaba com a questão da «consternação» contra a substituição de Joana Varela na Direcção da Revista, porque qualquer dos nomes citados para a continuação representa um garante de qualidade e erudição. Do que li, um dos receios estava relacionado com a cedência ao mainstream. Julgo que isso não irá acontecer. Em todo o caso, não deixa de ser significativo (e curioso) que os nomes escolhidos sejam tão consensuais. Ou que o processo disciplinar contra Joana Morais Varela se mantenha. O verniz já tinha, de certo modo, estalado nos meios intelectuais, e o Conselho de Administração quis dar um 'ar da sua graça' para terminar definitivamente com o mal-estar -- que se manterá se o processo disciplinar se mantiver. Depois disto, parece-me, reparem, parece-me, oportuno, e justo, dizer o óbvio: é tempo de criar uma nova Companhia de Bailado Contemporâneo. Isto é o que se chama ser 'chato'. Eh pá, mas quem evita chatices (lá está) com a nomeação de uma Direcção de peso para uma Revista de Literatura -- para fazer o processo disciplinar (é a terceira vez que escrevo 'processo disciplinar', oopps, quarta, contra Joana Morais Varela) --, também se faz à vida em outros campos determinantes para a Cultura. Ah, custa dinheiro. Paciência. A Cultura não é um fundo de maneio virtual com cotação oscilante no mercado de capitais, que tem de dar lucro num prazo de seis meses. Ou, em certos casos, até pode ser cotada, mas no que à Cultura diz respeito, vê-se quase sempre alguma coisa de palpável -- embora se perca dinheiro. Paga-se para observar, aprender, ficar zangado, irritado, num estado de coma entre a abstracção da obra e a sua pertinência, ou significado. Tudo bem, é isso que se espera. No caso de uma aplicação financeira, ultimamente, tem-se pago (e gasto) para perder, o que contraria as expectativas. Além disso, dinheiro, cumbú, nem vê-lo. É mais fácil pedir trocos a um sem abrigo do que esperar que um banqueiro nos pague um almoço em puro cash. [Ruben P. Ferreira]

 

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