João Luís Carrilho da Graça - Prémio Pessoa 2008


Recordo-me de uma vez em que entrou na sala de aula, arrumada, organizada e impecavelmente limpa, com uma exposição de maquetas - isto porque horas antes as maquetas (de trabalho) chegavam até ao tecto. Entrou, disse para a sua Assistente, a Arquitecta Inês Lobo, «isto não está», e saíram. Fiquei chocado. Acho que me ri. Houve quem chorasse. Tinha sido noite de directa, a acumular a duas ou três anteriores, de um ritmo de trabalho que destrói, embora nos faça sentir invencíveis. Claro que voltou à sala para explicar a razão de os trabalhos 'não estarem'. Quem o acusa de ter mau feitio, pode alterar os epítetos. É um profissional exigente. Demolidor quando quer, que é quase sempre. Mas sempre foi muito generoso, porque ensinava e explicava a razão do projecto, a ideia, estarem executados deficientemente. E, fazia uma coisa que os 'doutores' não costumam fazer: elogiava quando o trabalho era bom, ou razoável. Com ironia e sarcasmo, claro, mas dava o braço a torcer, como se diz na gíria, quando via algum mérito e pessoas (alunos) a correr riscos. Nesse trabalho realizado ao longo de um ano lectivo, no Alentejo (Mértola e Mina de São Domingos), como noutros ao longo de todo o programa de estudos, aprendemos tudo o que tínhamos para saber sobre o que é a Arquitectura. Tudo, que depois serviu, por exemplo, para a tese («Lisboa 2050»). Foi um ano em que dormi cerca de quinze horas por semana. Portanto, o 'feitio' está relacionado com rigor, exigência e sabedoria. Com o querer que os outros entendam como se faz, com o limar de arestas e o reforço no desenvolvimento de conceitos e de como se fundamentam. Tem graça o Arquitecto/Professor João Luís Carrilho da Graça ser galardoado com o Prémio Pessoa 2008 por isso mesmo, pois tem sido fundamental à formação de novos arquitectos. [Ruben P. Ferreira]

 

Quantcast