Arte de bem escrever

Quando uma pessoa está em casa a convalescer acaba por ter tempo para ler o Actual, denominado suplemento de Cultura do jornal Expresso. E, por dispor desse tempo, acaba também por se sujeitar à leitura de certos textos, como o dado à estampa por um escriba de seu nome Rogério Casanova (o que, já por si, não agura nada de bom), sobre um livro chamado «Intelectuais» (da Guerra & Paz), que hoje deve ser lido à 'luz' (salvo seja) da sua data de publicação (1988). Parece-me um exercício de desperdício de caracteres, que se sabe serem raros na imprensa. Mas a frase que destaco, paradigmática de um teor que é uma interpretação parva do conteúdo de um livro, e que só podia ser publicada no jornal que se dá ao luxo de fazer dois obituários diferentes sobre a mesma pessoa (John Updike) e em cadernos diferentes (o principal e o suplemento de Cultura) -- embora um deles seja sobretudo referencial --, a frase, dizia eu, é a seguinte: ««Intelectuais» acaba por ilustrar um dos problemas que diagnostica: o amarrar de uma intuição abstracta a um sistema explanatório estanque, que deforma tudo o que o contradiga.» Parece querer dizer alguma coisa, e diz realmente muito pouco. A intuição não é definida por limites, porque tanto é abstracta ou racionalizável, daí que os «sistemas» que os filósofos investigados no livro defendem sejam na maior parte dos casos diletantes, sujeitos a mudanças e não estanques, e não estão necessariamente relacionados com a sua conduta, que também se altera muito mantendo traços de personalidade próprios que são referidos como curiosidade -- mesmo o autor do livro, que supostamente segue um 'guião', tergivesa bastante. O escriba, contudo, tinha de terminar com um gran final indefensável, como a teoria que exibe em todo o texto. Pois, só que ao fazê-lo tornou-se imperceptível e abstracto, coisa que supostamente critica.

 

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