Poesia de hoje


Conhecer três poetas como António Cícero, Eucanaã Ferraz (brasileiros) e Gastão Cruz (português) numa única sessão da Casa Fernando Pessoa, segunda-feira passada (dia 16 de Fevereiro), é obra. Nunca vi tanta humildade e capacidade de deslumbramento de três autores com uma obra tão díspar. Com uma sala quase inexplicavelmente ‘sem gás nenhum’ (efeitos do Correntes D'Escritas, que terminou no domingo anterior), os cerca de quinze presentes, que incluíram João Pereira Coutinho e um senhor cujo nome não retive, com uma vontade indescritível de organizar um evento cultural a propósito da língua portuguesa e dos seus oitocentos anos – data que gostaria de celebrar em 2014, no Brasil, ano de «copa» -, dizia que os presentes puderam assistir a leituras de poemas, a um debate sobre a obra dos dois autores cujos livros estavam em cima da mesa e a uma conversa muito interessante sobre os paradigmas da linguagem.
Inês Pedrosa e Gastão Cruz – que tinha ganho o Prémio
Correntes D’Escritas Casino da Póvoa 2009 – fizeram as honras de lançamento, a par do editor das Quasi Edições, Jorge Reis-Sá. Gastão começou por discursar sobre a obra de Eucanaã, em particular sobre o livro de poesia lançado, «Cinemateca». Título que encerra ´três luzes diferentes’ (1ª, 2ª e 3ª), que são três capítulos com entoações diversas. A primeira luz, ‘muito positiva, do início do dia, uma luz clara; a segunda luz, mais dramática e turva; e a terceira, absolutamente trágica’. Depois, Eucanaã leu poemas diferentes para poder ilustrar as diferentes ‘luzes. Destaco o poema da terceira luz, «Fado do Boi» (que citarei em post posterior). E as conclusões a propósito da obra do autor brasileiro, de onde se pode ‘destacar um sentido da visão de uma forma aguda’.
A Directora da
Casa Fernando Pessoa debruçou-se sobre a obra de António Cícero, que considerou escrever ‘como um cientista’. Por realizar a ‘cesura do eu’, como lhe chamou, porque Cícero escreve também filosofia. Foi com ironia que o autor revelou que ‘quando surge o poeta, desaparece o filósofo’. E vice-versa. A contrariar a essência do filósofo, que quer pensar tudo, o tempo inteiro, e a fazer o ‘movimento contrário, preso até ao fundo numa coisa de cada vez’. Uma boa ideia, como a escritora revelou, para pensar Portugal livremente, um lugar onde também considerou não existir pensamento filosófico original, exceptuando Agustina Bessa-Luís, que não é lida. Por isso se elogia a edição em Portugal.
De Cícero, de quem destaco a autoria de um ensaio sobre a «Poesia e Paisagens Urbanas», de análise do fenómeno da poesia 'enraizada' e 'desenraizada', e outro sobre a Bossa Nona, «o Tropicalismo e MPB», presentes no seu livro anterior, «Finalidades sem fim» (Quasi Edições, 2007), ouvimos algumas preciosidades. «O Absoluto da modernidade não é tão absoluto assim; a metafísica, não a filosofia, é comparável com a literarura; a modernidade relativiza o Deus de Abraão, por isso, o deus de agora poderia ser o deus de Espinosa».
Descontextualizadas, as frases parecem perder a sua carga 'filosófica'. Mas farão sentido se pensarmos na escrita ‘desprendida’ de António Cícero, que avança nas suas obras de um modo ‘não ideológico’, com a pena livre a esboçar e explorar conceitos profundos de uma maneira acessível a qualquer leitor. Como no volume apresentado: «O mundo desde o fim – Sobre o conceito de modernidade», com textos tão díspares quanto, «Brasil feito Brasa» e «O Trânsito no Brasil» (textos dispersos, aqui reunidos), ou «A Apócrise e o Cogito» e a «Essência do Agora» (terceiro capítulo), depois de uma análise particularmente ‘difícil’ de Decartes e da origem da filosofia (segundo capítulo).
Foi inesquecível o modo como Eucanaã se dirigiu à plateia. Vou tentar reproduzir de cor: «já estou com saudades deste momento, de vocês aí, disto agora, com o João, a Inês, o Cícero, o Gastão e as coisas maravilhosas que disse sobre mim, a sua generosidade.» Entre a intensidade dramática de um e a generosidade e humildade de todos, perdoem-me se volto a frisar que foi uma noite diferente. Primeiro, por sermos poucos, num final de tarde em Lisboa, à volta das palavras. Segundo, porque a poesia lida – Gastão e Cícero também leram poemas de sua autoria – revelou um espaço de transição entre duas culturas complementares, entre dois países, dois sotaques e duas sonoridades distintas. Um bom mote para a apresentação do projecto «Transatlântica» , sedeado em Portugal na
Casa Fernando Pessoa, e de colaboração e ‘contaminação’ cultural entre Portugal e o Brasil, pelos seus autores. Outras histórias se cruzarão. A ver vamos como.

 

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