Penso, logo higiénico


Esta história das sociedades contemporâneas serem hiper-higiénicas surpreende-me. Não é que a higienização não devesse ser vendida num hipermercado. Só não estou a ver como é que o senhor Belmiro a conseguiria vender com sucesso. Quer dizer, há por aí muita gente porca que olharia para um pacote de higienização como observam um desodorizante. Passam depressa demais pelo corredor respectivo e esquecem-se simplesmente de o usar. Não é assim malta que se desloca frequentemente de transportes colectivos? O coro de vozes confirma-o. Ouço-o ao longe, embora o cheiro seja um pouco repugnante.
É cada vez mais difícil uma pessoa não ser substantivamente insultado porque, vá-se lá saber a razão, não partilha do mesmo gosto higiénico que a ASAE. Malta que, toda a gente sabe, é muito limpinha e culta. No mínimo, um inspector da ASAE tem um aspecto, digamos, esquisito. Terão sido horas a mais em frente ao computador a consultar decretos? Terá sido a permanência do Código Civil e da Constituição no seu colo? Se foi, digo-o sem pruridos, isso é uma porcaria. O próprio prurido é uma porcaria. Um aspecto que, lá está, assusta, porque deve bastante à higiene e faz-nos questionar se os inspectores da ASAE saem para a rua com as suas partes podengas impecavelmente limpas. Se isso não acontece estamos, portanto, perante uma contradição. Suja.
Levanto a questão pela recente necessidade que a União Europeia teve em fazer crer à população europeia e mundial (os americanos também comem) que o ‘pretzel’ – um pão com uma proporção de sal de 15 gramas por cada quilo de massa – poderá ser demasiado salgado, o que, já se sabe, pelo código dos higienistas, é uma claríssima violação da politicamente correcta medida de sal diária que o cidadão médio (seja lá o que isso for) deve ingerir. A obsessão é tão grande que a Alemanha poderá ver a medida de sal do ‘pretzel’ reduzida para um grama de sal por cada quilo de massa de pão. Uma descida em flecha.
Por cá o pão também tem sido alvo de ataques violentos, e há pessoas de organizações e autarquias de certos distritos a apregoar a moral da medida ideal de sal na massa, e na mesa. Isto implica, claro, uma possível contingência: provavelmente, o pão como o conhecemos, tem os dias contados. O que prefigura um cenário terrível de ‘pãozinho sem sal’, em que o pão alentejano e a carcaça militarão a par contra a marcha incondicional de gente invertebrada e sem espinha dorsal, prefigurada pelo comportamento considerado típico, necessário, de um exigível e temível consenso higiénico.
Haja paciência para tanta estigmatização e necessidade de parametrização – digo-o assim porque precisava de duas palavras terminadas em ‘ão’ para dar credibilidade a este texto. Ora bem (isto para agora pararmos um bocadinho e puxarmos pela cabeça). Se o ‘pretzel’ é demasiado salgado e o pão português idem, se o coirato é muito condimentado, se o hambúrguer das roulottes é forçosamente um atentado à manutenção de um saudável nível de colestrol pela relevância bacteriológica no óleo – que, sabemos, apenas tem aquele sabor em virtude de a frigideira nunca ter sido lavada desde os tempos da tia do actual proprietário – pode dizer-se igualmente que um fiscal da ASAE é um tipo mal-cheiroso que pode vestir-se mal e porcamente.
O que me interessa no cozido da Dona Vitória, lá do Minho, é que tenha o chouriço bem curado, e que tenha as carnes bem tenras, que mantenha o sabor que é fundado numa cultura ancestral. Que o cozido da minha avó, que também é uma maravilha, tenha aquele sabor e odor que me faz salivar quando ainda estou a entrar em casa dela - quando penso no arroz branco que fumega dentro da panela. Desconheço se a Dona Vitória ou a minha avó lavam as mãos depois de limparem as couves, o arroz, e de escolherem as carnes e os enchidos para o cozidinho, mas sei que por fazerem parte de um povo que tem tido os seus cuidados na manutenção de certas tradições, de certos hábitos gastronómicos, nunca desconsiderarão a higiene, nunca deixarão por mãos alheias o cuidado de porem na mesa uma refeição decente, bonita, saborosa e cuidadosamente apresentada em travessas de serviço que já nem se fabricam.
Não é preciso que um tipo engravatado, cioso da sua necessidade de controlo, mas esquecido da sua higiene pessoal e de um certo gosto por vestir delicadamente, me venha dizer como é que aquelas duas mulheres devem limpar os alimentos, arrumar a cozinha, qual o tipo de látex das luvas com que tratam dos alimentos porque, horror, não podem mexer directamente na comida, qual a localização dos fósforos relativamente aos tachos e por aí fora. O que é necessário é sermos saneados dos higienistas. Vão-me dizer agora que é muito melhor jantar num restaurante sem fumo do cigarro, cachimbo, charuto, cigarrilha, a pairar por perto, que já se detectaram fraudes alimentares tão graves que evitaram ao comum dos mortais a mais letal das gastroenterites. Pode ser. Até posso concordar com a luta contra os armazenistas manhosos que desrespeitam os seus clientes, que enganam toda a gente. Mas já ouvi relatos de cargas de carne que foram para abate porque um pedaço de plástico de uma caixa estava levantado, o que diz bastante do modo de pensar da malta fiscalizadora.
Quanto ao fumo, quando puderem, alguém que me explique porque razão consigo sentir o odor de um cigarro num restaurante com pé direito triplo e zonas livres e amplas para separar o rebanho das pessoas que, como eu, não fumam. Quando isso acontece, fico sobretudo zangado com o raio do decreto que obriga os não-fumadores a estarem separados dos fumadores, como se isso fosse uma garantia de que nunca, em nenhum momento específico, ou não específico, teremos o fumo do cigarro a pairar por cima de nós. Sobretudo, porque embora desgoste do fumo do cigarro, até aprecio o odor agradável de um puro de Havana. Ou de um cachimbo, que tem por norma um cheiro mais doce.
O pensamento higienista na sua proporção mais exagerada é uma modernice, e por essa razão é relativo. Pensar que se pode definir a direcção do fumo de um ou mais cigarros num restaurante é tão grave e demente como pensar que a vontade de construir um aeroporto em Alcochete é suficiente para definir a direcção do voo dos flamingos relativamente ao curso dos aviões. Penso que amarar no rio Tejo todos os dias pode causar prejuízos irreversíveis às companhias de aviação. Além de criar um spray incomodativo que pode suscitar lesões oculares graves nas aves.

 

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