Um sono reparador {actualizado}


Ontem roubaram-me as chapas de matrícula do carro ao pé do Colombo. Nada de especial. Queixa feita na esquadra mesmo ao lado, e estamos meia-hora a ver o senhor agente preencher papéis. O ar daquilo é de uma impureza e decadência impensáveis. É sinistro. Bem, adiante para o que interessa mesmo, ou talvez não, mas vamos lá na mesma. Ora, em meia-hora, pode fazer-se muita coisa e ver tudo com um detalhe que, a partir de certo ponto, começa a fazer comichão. Ou será impressão? Quer dizer, começamos a meter-nos na vida da polícia, e é capaz de ser atrevimento. Reparo no 'quadro de anúncios', em cortiça já muito gasta. Infelizmente para o comando do ar-condicionado, aquela foi considerada a parede indicada para o colocar. Ali estava ele, ao centro, pobrezinho, a sobressair da cortiça (furada), rodeado de papéis fixos com pionéses, um deles de um indivíduo procurado, numa fotocópia tão escura que fará da sua captura uma ínfima casualidade estatística. Uma verdadeira pedrada no charco da arte contemporânea para obstar à antiguidade do equipamento informático. Compreendo perfeitamente, não havia outro sítio para colocar o quadro. As restantes paredes ou eram divisórias ou tinham vidro. Não deixa, por isso, de ser adequado. Trata-se de uma esquadra onde entram pessoas estranhas com problemas ainda mais abstrusos. Quem é que, por exemplo, rouba chapas de matrícula de um automóvel estacionado ao lado de uma esquadra, podendo pagar para tê-las novas em folha? O ladrão que gosta de sofrer. O transeunte mais distraído sabe que, tendo viatura, e sendo esta alvo de um mimo desses, dirige-se a uma esquadra de polícia e trata de salvaguardar a vida, porque todos gostamos de nos levantar tarde, e acordar com um polícia de boina às 7.32h da manhã, apenas porque na noite anterior houve um assalto e o seu veículo foi utilizado, deixa lá confirmar, e nós a dizer, eh pá, quem me dera ser proprietário de um, digamos, bólide da categoria desse calibre que descreve -- Audi A8, coisa simples --, e isso incomoda e a pessoa fica o resto do dia com uma carga de nervos enorme não só por não ter o dito automóvel mas por forçarem-no a sair da cama para confirmar a indelicadeza. Foi por essa razão que conclui que quem teve a amabilidade de escolher o meu carro numa fila de uns 30 -- certamente, por causa da cor da carroçaria, pela qualidade do pneumáticos, talvez até pela qualidade do tipo de letra e do fundo das chapas de matrículas, de um branco puro; reparem que não escrevo apenas «matrículas», isso é linguagem de gente normal --, quem fez isso, esse ladrãozeco, em primeiro lugar é parvo, em segundo é parvo e em terceiro é parvo, inexperiente e merece ser alvejado por sniper, vá, nos dois dedos grandes dos pés e num testículo. Em flagrante delito, se fazem favor. Bem sei, bem sei, a PSP ainda não tem uma base de dados em tempo real com os números de todas as chapas de matrícula roubadas por todo esse Portugal (a avaliar pelas notícias, só terá uma base de dados de ADN), mas é só uma desconfinça, alguém vai ser apanhado! É meu desejo sincero que seja e, se isso acontecer, confirmarei o pedido de indmenização cível -- é um facto, podemos fazê-lo -- de, deixa cá ver uma quantia moderada que surta o efeito reparador pelos danos morais e financeiros, uns €100 000. Um número redondo. Quero também agradecer a simpatia de todos os condutores portugueses que, ou pararam nos semáforos para nos alertar para o facto de o carro não ter chapas de matrícula, que utilizaram as luzes dos máximos repetidamente para o caso de ainda não termos reparado, àqueles que se aproximaram daquela bela viatura de cilindrada elevadíssima e design -- ui! --, por trás, de lado (a observar atentamente o seu interior) e pela frente, para descobrirem aquilo que mais ninguém sabia e confirmarem que seríamos uns bandidos da pior espécie e que depois se puseram na alheta. Por fim, agradeço ao senhor de uma das portagens por onde passámos, que fechou a janela do cubículo onde diariamente trabalha com uma rapidez medonha. Deve ter sido do susto de ter estendido o braço a um, vá lá, 'criminoso', para receber o cartão multibanco quiçá 'copiado', tendo ainda por cima de o devolver. Esta gente, pá, sem escrúpulos, é assustadora. É que a chapa de matrícula, já se sabe, é um objecto que instila nos outros uma confiança cega. Tranquiliza a humanidade, que assim dorme descansada, em vez de em sobressalto. Aliás, automóveis matriculados são de certeza propriedade de gente honesta e fiável. Agora, carros sem matrículas, bem, ou são pertença de assassinos ou de assaltantes em plena fuga. O mundo está mesmo perdido. Já nem se dão ao trabalho de disfarçar.
Adenda: O desejo do autor do texto é de que o ladrão, que também roubou os parafusos das placas de matrícula, seja forçado pela polícia a ingeri-los.

 

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