Rallys às oito da manhã??????????????


Hoje começa aquele que já foi o «melhor rally do mundo». Do tempo em que os pilotos corriam em dois tipos de troços diferentes, alcatrão e terra. Do tempo em que o vencedor era uma incógnita até ao final, em que acontecia de tudo um pouco pela verdadeira essência que faz os rallys, o gozo de conduzir bem e depressa, e em que a primeira «menina» que atingia o primeiro podia muito bem ficar numa ravina. Do tempo em que era possível ir comer um bacalhau assado a Tábua. Do tempo em que havia um certo respeito pela tradição, pelo verdadeiro valor das coisas, pelos espectadores, que não estavam em casa a ver o dito cujo pelo televisor, mas a sentir o cheiro da gasolina especial, das pastilhas de travões em brasa, dos escapes próximos demais das canelas, a correr de um lado para o outro para ver os dez primeiros por onde quer que passassem. Dir-me-ão que agora acontece a mesma coisa. Permito-me discordar com alguma veemência. Quer dizer, começo já à bofetada se alguém ousar contradizer-me. Querem ver que tenho de ensaiar aqui e agora um arraial de porrada?! O melhor rally do mundo acabou. Agora, é apenas um rali como os outros, em que o primeiro classificado luta por décimas de segundos -- como na fórmula 1. Ora, toda a gente sabe que num verdadeiro «rally» as décimas de segundo não existem. É mais fácil cair numa ravina do que ganhar uma décima de segundo. Daí que a sua consideração seja um pouco parva. Sobretudo, quando se começam a comparar prestações em PEC's -- não sabem o que é uma PEC? Perguntem aos vossos pais. Por alguma razão, e apesar da exaustiva cobertura televisiva, os excelentes rallys de outrora passaram aos banais ralis de agora, onde não acontece nada verdadeiramente interessante. As «meninas» vêm, passam uns dias num país diferente a ver as vistas, a tomar as refeições às horas certas, não vá o estômago pregar uma das suas partidas, e é uma canseira, que horror, no domingo já estão de malas aviadas a caminho do quentinho do lar. Não vejo um McRae a voar com as rodas coladas às bermas. E depois, esta ideia peregrina de levar o rali para o Algarve, dá vontade de rir. O clima é mais ameno, deve ser isso, porque também compreendo que seja um pouco difícil acordar de madrugada em, digamos, Sever do Vouga, ou Góis, para realizar especiais enlameadas ou em alcatrão 'amanteigado' pela humidade, porque as «meninas», coitadas, dá-lhes um chilique se tiverem que derrapar um pouco, falta-lhes alma, e acabam por vir cá por favor, vamos lá fazer o jeito aos senhores, pois no Mónaco, e quando neva, escorregam e não os vejo esbracejar em protesto. E é se querem ter o prestigiado troféu.
O problema por cá persiste porque ninguém, até agora, soube defender as especificidades do «melhor rally do mundo». Todos se deitaram à sombra do prestígio, com receio das consequências de um espectador pior colocado, e da Organziação do Mundial, que são um papão com uma vontade indiscritível de substituí-lo, ao rally, por outro melhor. Yeah, right!
Vamos lá dizer a verdade: há espectadores mal colocados em todos os países. Alemanhas, Suécias e afins sabem fazer melhor, com melhor qualidade? Claro que não. Apenas defendem melhor os seus interesses. Não me lembro de ver um troço com as características de um Sintra-Sintra, Fafe-Lameirinha, ou Vila Pouca de Aguiar, Figueiró dos Vinhos, Viseu, e podia continuar. Por isso, precisamente por essa razão, é forçoso ter um rally, não um ralizinho para «meninas». É preciso abanar as estruturas e deixá-las soltas. Se as «meninas» ficam intrigadas porque em Portugal têm mesmo de mostrar o que sabem (o McRae fartava-se de protestar com o mau tempo e ficava, pelo menos, a partir carros), é fazer como à nova geração de gente agarrada ao telemóvel e sem um pingo de imaginação: obrigá-los a perceber --, mas em vez disso adapta-se a coisa às novas exigências. Sim, seria bom fazê-los acordar todos os dias cedinho, vamos lá, por volta das quatro e trinta e oito. Comer? Só depois do primeiro troço. Se correr bem...
Começar o rali às oito e nove da manhã? Coitadas das crianças, que não podem levantar o rabo da cama, queres ver? E, já agora, outra pergunta: as marcas de automóveis e sponsors ainda não perceberam que a redução exaustiva de custos, a especificação de ralis de um tipo único de piso, em vez de rallys -- que é uma palavra muito mais selvagem --, que ter alcatrão ou terra e não ambos, que o começar tarde, para não cansar, com um número reduzidíssimo de especiais, determina a falta de qualidade do produto, um assombroso desinteresse, mesmo com a tal exaustiva cobertura televisiva? Realmente, a «higiene» chega a todo o lado. Até onde não devia. Não quererão por acaso sentar-se num simulador e conduzir as viaturas de um modo televisionado, para todos vermos? É apenas uma ideia. Tão boa quanto levar a betanagem toda ao rali a uma hora 'decente' porque isso é giro.
Adenda: os mais velhos acharão estranho o protesto, contudo, fico um pouco irritado com a permanente delapidação de todo um património cultural que se esvai, sem ninguém considerar isso importante, sem ninguém acusar a pertinência do sucedido.

 

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