Três Poemas de Al Berto

«PASSO OS DIAS a observar os objectos
sinto o tempo devorá-los impiedosamente

já não somos marinheiros nem pastores
nem ferradores nem vendedores de animais
perdemos a sabedoria dos remotos ofícios
ignoramos o ardor dos corpos estendidos no orvalho
a beleza da noite desprendendo fogos
o aroma espesso dos frutos... a fecunda alegria

arrasto comigo o cheiro amargo da memória
mascaro os dias com palavras cujo significado perdi
mas nenhuma felicidade vem alojar-se no coração

o mundo que te rodeou continua inaudível e perdido
apodrece nas fotografias arrumadas dentro da gaveta
debaixo da roupa engomada

o aparo da caneta imobiliza por trás de cada palavra
o som dos poucos objectos com que partilhámos a vida

fica com as máscaras de tinta a morderem-te a noite
eu parto para qualquer país onde não exista

OS BARCOS SÃO a imagemque resta para fugir
mas só as palavras nos embriagam
são labareda que devora os barcos e a memória
onde nos movíamos
esquecemos o que nos ensinaram
e se por acaso abríssemos os olhos
um para o outro
encontraríamos outra imobilidade outro abismo
outro corpo hirto
latejando na imperceptível ferida nocturna

pernoito na precária vida do fogo
este rumor de mãos ao de leve pelo corpo
adormecido na superfície do espelho
assalta-me o desjo incerto de te acordar
e o medo de querer de novo tudo reinventar

DE LABIRINTO EM labirinto
construí o tempo de imperceptíveis gestos
no ouro da memória tecia o minotauro
tatuado a néon sobre o ombro
depois
por entre o fumo de haxixe cresceram as cabeças
das leoas de Delos hirtas
nenhum sofrimento nos atingia
quando apertei a mão de meu amigo
e o levei pelo sono do mar
onde se levanta um corpo
capaz de paralisar de alegria o coração

parámos de nos contar histórias antigas
mas a sedução do minotauro permanecia
e falámos tanto que me esqueci de te dizer
uma ave sangra sob os passos
onde a cinza rubra de fogueira extinta
reacende um desejo que nos murmura

quando morrerdes o amor dispersar-se-á
e flor nenhuma como Narciso Adónis ou Jacinto
vos recordará

fomos em silêncio pelas ruínas da ilha
não encontrámos água
bebemos os poemas e a paixão
bebemos sôfregos o vento ardente
até perdermos o sentido das palavras
e cada vez mais debruçados para a noite
dos oráculos insones crespúsculo e alba
nenhuma saída se vislumbrava»

[poemas retirados da colecção Sem Título e Bastante Breve e Outros Poemas, Assírio & Alvim (2009), publicados originalmente em «Últimos Poemas» pela mesma editora (1996/1997)]

 

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