Um pouco de terrorismo literário {actualizado}


Acho muita graça que a Maria do Rosário Pedreiro venha a terreiro defender a edição com tanta genica, ampliada solenemente pela matilha que segue atrás. Isto porque, ao realizar tal acto de 'contrição pública', dizendo que publica «lixo» para dar a oportunidade a outros autores mais jovens e melhores, vem expor um pouco daquilo que é o mundo português da edição (não só mas também). De facto, a desonestidade intelectual de alguns editores é absolutamente flagrante. E a pouca vergonha também. O problema da edição em Portugal é seguir o rasto de tudo o resto que é português. Não há assim tantos autores, em parte porque a edição é marcada pela amizade, e depois, porque existe pouca gente a escrever decentemente, ou porque os que escrevem com decência e esmero continuam a tentar obter os números de telefone certos para se enquadrarem e verem os seus livros vir a lume ser apreciados ou recusados, esbarrando ciclicamente na carta timbrada do costume. Digam o que disserem, e escrevam o que escreverem, são apenas os livros de alguns que são escolhidos e trabalhados até à sua publicação, e são apenas alguns os que têm a oportunidade de publicar. Diz-se o contrário, que a liberdade é total: é mentira. Como a de que a edição não dá dinheiro e de que o mundo editorial é de uma miséria franciscana.
Dar-se ao trabalho de escrever tanta memória evocando o passado analfabeto de um país que devia ter os olhos assentes no exterior para copiar sobretudo o que é bom (o que raramente acontece), apresenta-se-me como paradigmático da vontade que a maior parte tem em deixar as coisas no sítio delas, como estão, sem fazer nada que as altere -- apesar do teor do texto ser, como é que diz por cá, relativamente polémico. Mas recordo que a Maria do Rosário é tida como uma editora que privilegia uma escrita (e literatura) anglo-saxónica, de puro entretenimento, e de menor pensamento -- o que o texto referido também revela. Ora, se a Maria do Rosário é tão adepta do modo como se escreve bem lá fora, gostava de fazer a seguinte pergunta: como é que alguém com esse gosto vem dizer que é uma chatice publicar-se «lixo», uma vez que 'lá fora' a publicação de «lixo» é uma constante. É que ao publicar-se «lixo» é, pelo menos, possível, marcar a diferença entre o que é bom, relativamente bom e péssimo! Ou estou enganado? Já para não falar na questão da liberdade, que permeia a possibilidade de todos os autores poderem, pelo menos, ser lidos.
Por cá o problema é outro: publica-se muito pouca literatura decente, que valha realmente a pena ler, e esse é o verdadeiro problema. Não há equilíbrio. Prolifera a desgraça alheia para todos recordarmos com a dedicação do costume, perfilada em «escritores» com a mania de que o são, ou naqueles ansiosos por comentar e dizer ao mundo de sua justiça o quanto a sua literatura é necessária e o quanto o «lixo» deveria ser banido das prateleiras (ver comentários do referido post). Depois, bem, depois vamos ler as «obras-primas» e ficamos (superiormente) irritados.
Nos EUA e em Inglaterra e no mundo todo, quer dizer, há «lixo», é certo, mas há tanto ou mais literatura de qualidade. Os fenómenos literários «light» são encarados como tal, e um dia isso mudará, ou não. Espera-se e a questão fica por aqui. Ninguém anda a discutir se certo tipo de literatura que tem ou não qualidade deveria desaparecer, como ninguém discute se vale a pena compreender o que é boa ou má arquitectura para implodir os maus edifícios -- para dar um exemplo. Por cá, contudo, além de uma incapacidade natural de quem edita por fazer pela vida sem meter os amigalhaços e os conhecidos, e os telefonemas das tias, e as cunhas do sobrinho que acabou o mestrado e quer publicar, ao barulho, delimitando imediatamente um espaço que deveria ser público e acessível a todos, discute-se demasiado o supérfluo e faz-se pouco por aquilo que interessa, que deveria ser dar à estampa alguma coisa de jeito, literatura que nos obrigue a pensar, filosofia, ensaio e também, lá está, entretenimento de qualidade. Com equilíbrio. E, de facto, alguma crítica planeia uma agenda a seu bel-prazer, com a conivência e abertura da maioria, fazendo, como outros, pela vida. A maior parte dos livros recenseados aperecem em toda a imprensa, para todos se manifestarem colectivamente, porque, eventualmente, considera-se ser essa manifestação pública o garante de crebibilidade do 'movimento'.
Digam-me lá que justificação o senhor doutor José Mário Silva teve para (com outros, é certo) purgar a existência de um prémio literário de monta, como é o Prémio Leya, e depois fingir que não é nada com ele e fazer-se de sonso, destacar o autor com honras de capa no suplemento Actual, do Expresso, pois é desse modo que se manifesta a liberdade e, simpaticamente, terminar o novelo a destruir a obra na crítica que lhe faz. E um tipo de destruição um bocado sebenta, porque quem escreve «reflexões finiseculares de pendor melancólico» está a pedir que o alertem para as imprecisões epicianas da sua meta-fraseologia. Isto diz muito do que temos por cá, da metodologia e de como tudo se passa. E estendo a impertinência a outros que se armam em defensores da língua e da edição e de toda essa massa de cabaz burocrático que amplia as deficiências perturbadoras de uma sociedade centrada na esquizofrenia colectiva.
A verdade é que Portugal não interessa assim tanto para o mundo como certas pessoas querem fazer crer -- fazem-no por interesse próprio. E mesmo que interesse em alguma situação excepcional, apenas quem tem os neurónios no lugar e lastro intelectual pode denominar-se defensor guerreiro da seara alheia sem parecer ridículo. Deveríamos ser menos defensores do que se faz lá fora, ou, se o que se faz lá fora é considerado como um exemplo de qualidade, então aplicar a medida em toda a sua extensão. Se fôssemos menos nacionalistas que os americanos (e escrevêssemos melhor, com mais revistas e livros) e mais descontraídos, como os espanhóis (com mais revistas, livros e autores), com um pouco da arrogância dos franceses (com mais ensaio e filosofia) e alguma da brutalidade dos escoceses, estaríamos bem. Mas cá ou se é uma coisa ou outra. E isso tem espalhado estilhaços (ou melhor, «lixo») por todo o lado.

 

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