Ah, que bonito


Somos informados aqui de que hoje comemora-se o Dia Europeu do Vizinho. Num país de brandos costumes, como é Portugal, seria de esperar que todos se comportassem com, digamos, cordialidade. Afinal, nem sempre é assim. Posso comprová-lo. Nunca tive vizinhos absolutamente sãos, embora outros fizessem as vezes dos anteriores, com pequenos mimos como receituária doceira e alguma atenção amiga. Mas há sempre um controleiro, um agitador e um completamente amorfo, para o qual tanto se lhe dá que caia uma bomba atómica, até decidir importunar toda a gente com problemas menores. Quando acorda mal-disposto e acha que o administrador do comdomínio tem de resolver o seu problema naquele instante. Incluo-me na categoria das pessoas cordatas, que costumam dar os bons dias e esperar dos outros alguma simpatia e inteligência. Melhora relações de proximidade inevitáveis. Há alguns meses saímos de um «condomínio», onde aguentámos seis ou sete meses. A maior parte dos «vizinhos» entrava e saía sem dizer 'água vai'. Poderia compreender se habitássemos palácios, se os corredores se prolongassem por centenas de metros quadrados, e mesmo assim, quer dizer, a aristocracia tem maneiras. Nunca foi o caso. A parvoíce impera e a inteligência é um bem escasso. Partilhar o lobby de um edifício e compreender que os outros, por alguma razão tão legítima como a sua profunda ignorância, se comportam como monos, acaba por nos fazer repensar o lugar onde queremos viver. Ou, perceber que o valor pago ao «condomínio» serve sobretudo para contemplar a má-educação, a estupidez e o descaso, como o desentupimento das canalizações de fraldas, pensos higiénicos e outros objectos de densidade pouco adequada. Já para não falar do desatino de ter de ouvir o vizinho de baixo armado em tenor todos as sextas à tarde e domingos de manhã, por vezes reunindo a família na loucura. O problema aqui também é arquitectónico, mas a explicação fica para mais tarde. Quando era mais novo, habitei temporariamente a casa de uma avó, onde se ouviam ao longe tiros e berraria de nível cigano, de outra avó, onde não havia mais nada senão eu, a vegetação e espaço aberto para circular de bicicleta, a casa de uma prima, onde se ouviam os pássaros e as pessoas eram 'bem', e a casa-casa, onde o vizinho de cima apreciava ouvir ópera ao domingo de manhã, de janela aberta. Tolerava a impertinência porque a mulher dele permitia-me acesso à biblioteca lá de casa -- sobretudo dela e da filha. Acabei inclusivé por apreciar o género musical. E até achava piada ao facto de ele colar faixas fluorescentes em volta de todos os automóveis que comprava. Para aumentar o efeito «racing».

 

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