Almoçar devagar II


Voltei à «Triunfante do Conde Barão», ansioso por comprovar a qualidade do bolo de chocolate -- não era preciso, mas por vezes sou assaltado de uma tenacidade impossível de controlar. Tentei até chegar um pouco mais cedo, embora o timing tenha falhado, pensei ao entrar, quando vi o expositor das sobremesas repleto, excepto com aquela por que estava a salivar. Posso identificar algumas: o pudim flan (em fatia generosa), a mousse de chocolate, as frutas frescas, o bolo de bolacha, e paremos. Surpresa das surpresas, descobri que a falta do dito doce no seu respectivo lugar se deveu, simplesmente, à obsessão colectiva com a forma física. Uma justificação, digamos, típica dos tempos politicamente (in)correctos que andamos a viver. O problema? Única e exclusivamente, o medo da banha. Da gordura. Disse-me a obreira da receita que é um primor: «deixei de fazer, sabe, as pessoas gostam de manter a linha». Facto insofismável: a «bomba calórica» arrumava qualquer um. Acreditei piamente naquelas palavras. Para me tentar consolar com uma justificação, pois devo ter demonstrado uma tal tristeza, rematou, dizendo: «obrigado por ter perguntado». Oh, minha senhora, de nada, perguntarei as vezes que forem necessárias até ver aquela mancha redonda reflectir com grandiosidade no espelho da prateleira onde reservam o 'ouro' aos bandidos. E digo mais à populaça. Endoideceram? Saibam que quem muito se preocupa com 'a linha', impedindo as doceiras de outrora de fazer o que melhor sabem, não merece o ar que respira. A esses higienistas do estômago, dou um conselho saudável: realizem 'o' desporto. Cura todas as mazelas, incluindo as maleitas do foro psicológico. Melhor isso do que forçar a restante população a evitar certos prazeres. A alimentação é sagrada. Nela não se toca. Fica como sempre esteve, impecável, com o mesmo sabor, semelhantes porções, calorias e tudo a que temos direito. Há prazeres que de nenhum modo se deverão extraviar na ânsia de manter a barriguinha lisa. Confesso-me um pouco despreocupado com a linha, pois arremesso todas as potenciais gorduras para o devido lugar em jogos de ténis que parecem lutas greco-romanas. Penso, por isso, que o meu interesse no bolo de chocolate será brevemente recompensado. O 'obrigado por ter perguntado' augura alguma coisa boa, e se não augurar usarei estratégias para poder, finalmente, afinfar o dente na fatia de bolo com doze centímetros de altura. Conjuguemos, então, o verbo apropriado. Ora, eu salivo, tu salivas, nós...

 

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