Um novo paradigma, ou é impressão minha? {actualizado}



Começou anteotem a 79ª Edição da Feira do Livro de Lisboa, com novos pavilhões (melhor, quiosques, prefiro nomeá-los assim), novos horários, e uma multidão (que julgo 'recente') a entupir as 'estreitas' ruas neste segundo dia. Lisboa está mais cosmopolita, é verdade, e havia muitos estrangeiros a circular pelo Parque Eduardo VII, mas uma combinação de factores, como o facto de estar bom tempo e calor, e de ser feriado (1º de Maio, dia do Trabalhador), contribuiu para o efeito. De todas as vezes que visitei o certame, não recordo enchente tão grandiosa. Penso que um dia destes deve compensar uma semana de feira de 2008, certo? Quanto aos novos 'quiosques', desenho limpo, mas penso que a falta de conforto, ao contrário do que alguns apregoam, mantém-se na íntegra. Quem passa horas de enfiada dentro dos quiosques, tem de levar o banquinho de casa para não cair para o lado de exaustão ao final do dia de trabalho. E aqueles estrados inenarráveis, absolutamente desenquadrados de uma nova imagem que se quer fazer passar, e onde temos de nos empoleirar para chegar às prateleiras laterais, são uma solução de recurso. Sente-se. Julgo que a estada no Parque deve estar por um fio, pois a 'arquitectura' dos quiosques funcionaria bem num espaço plano, sem declive. A manter-se a feira naquele lugar, ter-se-ão de realizar algumas alterações ao projecto dos mesmos; a mudança para outro lugar acaba com o «mito» da localização no centro (centro) da cidade. Escolha difícil. As novas zonas de debate, totalmente abertas, são também disparatadas. Os espaços auditório, com «A» grande, de anos anteriores, embora mais dispendiosos, funcionavam mellhor e conferiam um garante de credibilidade à Feira. Quem é que não se lembra de ver uma actuação do elenco das «Manobras de Diversão» num espaço amplo e funcional? Quanto à Praça Leya, do grupo com o mesmo nome, que tanta polémica gerou no ano passado, continua em grande, e com o barulho ensurdecedor do apito contra roubo a ribombar em tonalidade irritante. São, contudo, os únicos quiosques que permitem circular no interior para mexer-se nos livros arrumados nas prateleiras -- destaque para o Prémio Leya 2008, com as duas versões (capa mole e dura) disponíveis. Vi Inês Pedrosa e outros autores sentados ao centro, à espera de uma conversa, de um pedido de autógrafo, enquanto os leitores, muitos deles crianças, enchiam o lugar -- à espera de algum espectáculo de variedades. Resumo do segundo dia: muitos encontrões, algumas compras de fundos de catálogo e de outros volumes que a minha mulher (a «cúmplice») e eu não quisémos deixar por lá. Da Campo das Letras, dois volumes da colectânea «Relação de Bordo», de Cristóvão de Aguiar. Da Imprensa Nacional Casa da Moeda, um ensaio, «Theatrum-Mortis Poiéticas, arquitectónicas», de Carlos M. Couto S. C.. Da Relógio D'Água, «O Caso do Homem Que Memorizava Tudo», de A. R. Luria. Da Assírio & Alvim, colecção «coração, cabeça e estômago», dirigida por José Quitério, «O Livro de Mestre João Ribeiro»; «Olhas de Frente - Perspectivas Clínicas das Perturbações da Adolescência», edição de Robin Anderson e Anna Dartington; «Vida Interior - Psicanálise e Desenvolvimento da Realidade», de Margot Waddell -- e havia ainda mais para 'recolher'. Fica para a próxima 'ronda'. O uso da expressão não é inocente. As ruas da Feira mais pareciam um 'ringue de box politicamente correcto: o encontrão milimétrico jeitosamente aplicado que, como os jogadores de futebol sabem, faz sempre bastantes estragos a quem corre num equilíbrio instável -- e ali deixavam-nos a ver aquela edição fugir para as mãos de alguém; o encosta para lá devagarinho, para ocupar o lugar do outro; a técnica do respirar ofegante, que é nitidamente um golpe baixo, por obrigar ao confronto com o hálito alheio. As pessoas pegavam nos livros com a ânsia de quem olha para o lado e pensa, 'este é meu e já ninguém mo tira'; ou, 'olha aquele, deixa-me agarrá-lo antes que alguém se lembre'. Até na zona dos alfarrabistas, apesar de este ano a presença de livros usados ser bastante mais fraca. Para a semana, conto como foi a segunda visita.

 

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