Já lá iremos


«O uso da subjectividade é um risco assumido por Artur Portela. No caso da história de Max e do seu pai, jornalista do Heralbd, a focalização narratológica serve o propósito de evocar uma época marcada por factos históricos aparentemente ‘fictícios’: a ditadura, o «Ductor», a «Censura», na «Toma» (cidade), no interior da Istmânia (país?), que tem um muro erguido em toda a extensão da sua costa, a «Barreira». As semelhanças com a realidade são um reflexo do objectivo pretendido, e as respectivas comparações são, por isso, uma inevitabilidade. Portugal, Lisboa, Salazar, o Lápis Azul da censura, a raiva contida nos cafés, o modelo «Lá fora» que não serve cá dentro. Max combate a doença actual com a mesma determinação que o pai combateu a fita da glosa, que media cada palavra com rigor e despeito ideológico. Muitos períodos narrativos são fragmentados por outros de que decorrem. Noutros, o efeito literário é disruptivo, embora certas histórias ocorram em níveis distintos. Por exemplo, a «Guerra da Meseta», em que o pai de Max combateu uma ‘guerra de vinte anos’. O efeito parece perder um pouco de fulgor quando lido tão cruamente e à luz da contemporaneidade. Pode ser da tipologia narrativa – pequenos capítulos, variação cronológica –, mas uma sucessão de acontecimentos nas entrelinhas, que ficaram por contar, acabariam por conferir ao conjunto uma maior coesão.
Título: A Guerra da Meseta
Autor: Artur Portela
Editora: Dom Quixote
Preço: €16
Classificação: 3,5 estrelas
Prós: Qualidade e riqueza lexicais
Contras: Fragmentação narrativa; frase chamativa na capa»
[texto publicado no nº 76 (Junho de 2009) da Revista Os Meus Livros]

 

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