Os 'críticos' e os outros críticos


Dentro de momentos, apresentarei a lista de leitura e sugestões para este Verão. Pela primeira vez, é baseada numa escolha da biblioteca cá de casa, o que quer dizer que consistirá em alguns clássicos imprenscindíveis (releitura para alguns), algumas edições dos últimos anos, com pouquíssimas novidades publicadas nos últimos meses. Isto sucede porque as nomeadas 'novidades literárias' têm chegado a conta-gotas, e sempre depois de onerosos contactos com as editoras (será simpático dizer o nome de algumas?). Isto porque nem todos os críticos literários se podem gabar de receber caixotes com livros, ou de ter de realizar uma selecção rigorosa, reciclando uma boa parte, porque o espaço físico para os arrumar escasseie. Não. Parece que apenas alguns são considerados pelas editoras portuguesas como dignos representantes do núcleo literário que faz crítica, da chamada boa imprensa -- o que força imediatamente a distinção para com os representantes da 'má imprensa'. Os outros, coitados, aquelas pessoas aborrecidas e dispensáveis que escrevem sobre livros, podiam estar a fazer outras coisas mais significativas do que dar-se ao trabalho de ler e escrever sobre o que se publica -- o trabalho dos editores. É o raio do universo das 'capelinhas' no seu melhor. É esta mania portuguesa de fazer distinções. O bom é muito bom, independentemente da sua qualidade e do que faça, e o mau é muito mau, independentemente do mesmo. O que está na base da atitude é semelhante ao que está por detrás do gosto de reconhecer o talento dos escritores (principalmente, mas também de artistas em geral) depois de falecerem. Aliás, falecer é, em Portugal e no mundo, a forma mais expedita de ganhar credibilidade, sobretudo, credibilidade literária. A Dom Quixote (ah, pá, identifiquei uma das editoras mais credíveis), por exemplo, que é uma grande editora que agora pertence ao grupo Leya, envia-me livros uma vez por ano, por vezes nem isso. O leitor mais incauto pensará: «está bem, envia uma tal remessa, que a casa fica atulhada.» Errado. Os livros que já me disponibilizaram para leitura e crítica (neste e noutros espaços) não enchem, digamos, uma prateleira pequena. Fico-me por aqui. O Verão está no pico e vale a pena pegar num livro e esquecer, por momentos, o trabalho. As praias estão cheias, portanto, recomenda-se um modo de leitura mais intimista, no domínio da chaise longue lá de casa, da varanda-terraço sobre a cidade, campo e mar, da sombra do chaparro, do pinheiro, de qualquer árvore frondosa, em pleno campo ou, simplesmente, sentados no sofá da sala enquanto entardece -- ao amanhecer também é agradável. Aproveito apenas para avisar que a política editorial deste espaço mudou. Quer dizer que a partir de agora só se farão referências (vulgo, divulgação) a novidades literárias, efectivamente, palpáveis. A lista de leitura segue dentro de momentos.

 

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