‘Um poema nunca é acabado, apenas abandonado’


«Discípulo de Stéphane Mallarmé, Valéry realizou uma obra a dois tempos: poético e científico. Num campo, a redução das palavras ao ‘essencial da literatura’, sem subterfúgios alegóricos ou efeitos líricos, a procurar concretizar uma linguagem que se sustentasse na sua precisão. No outro campo, a extensão teórica da análise (em prosa) estendeu-se à arte, poesia e literatura, composta numa variante ensaística associada aos fenómenos sociais e naturais. Contaminada pelo ‘mundo’, pelo efeito da ‘razão e da inteligência’. «Eupalino e o Arquitecto», um conjunto de três textos distintos sobre a estética da arquitectura, dança e poesia, foi escrito antes de ingressar na Academia Francesa (1926). É recuperada uma terminologia ‘clássica’, pois Paul Valéry sistematiza e funde ‘personagens’ dos textos gregos – Sócrates e Fedro, Erixímaco; Lucrécio e Títiro –, em três diálogos que aprofundam ‘a razão da beleza, da ‘construção’ arquitectónica do espaço e do «eu»; do acto de amor que é mover o corpo de um modo articulado, numa estética em harmonia com o ‘espírito’; e da pureza de uma árvore, da sua seiva, sensibilidade e complexidade da sua sombra – a poesia da ‘superfície das coisas’. Confiante de que a ‘alegria’ não podia ser um acto isolado, acreditava que pacificar os sentidos era o que de mais pleno uma produção artística poderia inspirar.»

Título: Eupalino ou o Arquitecto – Seguido de A Alma e a Dança e Diálogo da Árvore
Autor: Paul Valéry
Editora: Fenda
Tradução: Maria João Mayer Branco
Preço: €16
Classificação: Quatro estrelas

Prós: Edição; prefácio; tradução
Contras: Nenhum

[texto publicado no nº 77 (Julho de 2009) da Revista Os Meus Livros]

 

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