1934-2009



Morre João Vieira, pai de Manuel João Vieira, e não sei que dizer. Fico triste. Recordo ter privado com ele uma única vez, quando o entrevistei em 2001 para uma rubrica que a revista de O Independente tinha, «O Pai (ou Mãe) de». Eu e o Alberto Picco (fotógrafo à antiga) fomos a Chaves e por lá ficámos umas horas, depois de um dia de véspera no Porto, já não me lembro a fazer o quê. Visitámos a casa que tinha ali por onde entrava uma luz incrível, e isso é impossível esquecer, a luz acompanhada do vinhedo e das cores pastéis das paisagens longas e desenhadas do Norte de Portugal, a constrastar com os seus quadros escuros. A casa era marcada por outra cor muito intensa, o vermelho, que cobria paredes e guardas. Na sala onde estava a trabalhar, junto 'à terra' (num piso inferior), quadros semelhantes a este acima estavam encostados a uma parede, ainda por definir aquelas manchas brancas que parecem esconder qualquer coisa atrás de si. O João disse que as últimas semanas de trabalho tinham corrido muito bem, por terem sido bastante produtivas. Por fim, ofereceu-nos almoço. À chegada a Lisboa, enviou-me a sua mais recente obra bibliográfica, «João Vieira, Percursos 1960-2001». Fiquei ainda mais fascinado pelo seu trabalho, que conhecia mal. Ninguém diria que aquele homem tão simples, e ao mesmo tempo tão marcante, pudesse ser quem era, parte integrante do grupo 'Café Gelo', em Lisboa e que, por exemplo, privou com Christo (aquele artista que, vamos lá ser um pouco populares, 'embrulha' palácios e afins). Alguém que tinha uma enorme capacidade de despertar a curiosidade nos outros. Alguém generoso.

 

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