Los Angeles em Lisboa


«Estas ligações entre cidade, sociedade e tecnologia são um descobrimento bastante óbvio para qualquer urbanita cyborg, mesmo que alfacinha. Apesar de todas as identidades melancólicas associadas à mítica saudade que teima em colar-se à pele dos lisboetas, é difícil dar conta do que une 2 milhões e meio de pessoas através unicamente de velhos fados e sardinhas assadas. José Cardoso Pires, no seu Lisboa, Livro de Bordo desdenhava dos cenários de catálogo oferecidos pelos miradouros, bons apenas para o olhar superficial do turista. Talvez sugerisse que as narrativas do seu amigo António Lobo Antunes, cujas personagens circulam tanto pelos velhos bairros do centro como pelos subúrbios da Amadora e de Santo António dos Cavaleiros, fossem mais apropriadas para dar conta da complexidade da metrópole Lisboa. Abrandemos então o ritmo deste capítulo, e o seu olhar global, e concentremo-nos numa dessas paisagens dignas de figurarem num romance de Lobo Antunes, o espaço definido pela ligação entre o IC19 e a A5 que pôs o Cacém em contacto com Oeiras.
Ambos os extremos da nova ligação revelam a velha estrutura radial da região de Lisboa, organizada em função das comunicações com o centro da cidade. Se a A5 e o IC19 motivaram uma concentração nessas zonas, já muito antes as linhas de caminho de ferro tinham cumprido a mesma função. No extremo norte, o Cacém desenvolveu-se à volta da sua estação, nó ferroviário de entroncamento da linha de Sintra e da linha do Oeste. Ao crescimento exponencial de população em busca de residências de baixo custo com bons acessos ao centro de Lisboa juntaram-se os armazéns, as indústrias ligeiras e as oficinas que, gozando dessas mesmas vantagens, fazem a identidade do local desde os anos 60. A sul, e com pouco contacto com esta zona, encontram-se áreas residenciais como Porto Salvo ou Vila Fria, pontos mais longínquos dos aglomerados que cresceram à volta das estações de Paço de Arcos e Oeiras na linha de Cascais e da ligação com a estrada marginal. Entre ambos os extremos, terra de ninguém. Uma perfeita comunicação radial orientada apenas para o centro de Lisboa, com as ligações entre raios feitas por estradas de carácter marcadamente rural. A expansão da metrópole raramente reflectiu orientações de planos ou outros instrumentos urbanísticos, confirmando que há poucos elementos mais decisivos para a forma das cidades que a infra-estruturação do solo. Afinal, também em Lisboa a tecnologia é um elemento essencial para perceber de que é feita a cidade.
É em espaços intersteciais como este que melhor se percebe a lógica reticular metropolitana e as oportunidades que surgem nas paisagens esquecidas. Até à construção da ligação A5-IC19, as vantagens de aí localizar qualquer actividade dependiam quase exclusivamente da distância a esses dois eixos. A partir do momento em que ambos os nós foram postos em comunicação por meio de uma nova via rápida reticular ligaram-se vários espaços descontínuos e abriram-se novas oportunidades de ocupação. Foi nessa terra de ninguém que se decidiu construir o Tagus Park, coqueluche de todos aqueles que vêem na I + D a nova auto-estrada para o desenvolvimento (Feio e Ferrão 2001).»

 

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