O que se anda a fazer


«Quando se consideram os processos de subjectivação em Portugal, tem necessariamente de se levar em conta um factor essencial que se situa no cruzamento das estratégias de poder e das «técnicas de cuidado de si», ou seja, dos procedimentos do sujeito na auto-afectação de si ou produção de subjectividade. No cruzamento das forças que conduzem às formações de poder e das forças de que se compõem as subjectividades. O encontro entre dois tipos de forças forma um plano de relativa liberdade do indivíduo que procura escapar às tecnologias do poder e aos seus processos de subjectivação. Em Portugal, há vários desses planos (por exemplo, o da «malta ou do «pessoal»), de que destacaremos um pela sua importância: aquele em que se desenvolveu o que a linguagem popular chamou «o chico-esperto», a «esperteza saloia», o «carapau de corrida» -- se bem que todas estas expressões não sejam exactamente sinónimas. Ao seu elemento comum chamaremos, no entanto, chico-espertismo.
O chico-espertismo atravessa todo o tipo de subjectivdade da nossa sociedade, sendo transversal a todas as classes, grupos, géneros, gerações. Na educação popular usa-se habitualmente um epíteto carinhoso para «provocar» ou espicaçar uma criança: «malandro» (ou maroto), com todas as variantes de «malandreco», «malandrete», etc. Epíteto formador, porque carinhoso e incentivador da acção que, ao mesmo tempo, se critica a brincar. Os ingredientes do futuro chico-espertismo estão já aí. A um garoto (mesmo a um bebé) lança-se um «seu malandro!» quando se atribui malícia, dupla intenção de fingir não enganar e enganar para obter um fim sem relação visível com as suas palavras ou acções -- e assim se inscreve na criança um padrão indelével de comportamento e de relação com o outro
[Em Busca da Identidade - o desnorte, de José Gil, Relógio D'Água, Lisboa, 2009]

 

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