De um lado qualquer

Do debate (conversa) de ontem na FNAC Chiado, a que assisti em parte, retive a discussão sobre os homens e as mulheres na obra de Agustina Bessa-Luís. E, nem de propósito, deixarei aqui um excerto da interpretação da autora, do livro «Contemplação Carinhosa de Agustina» (Guimarães Editores), uma recolha da sua 'produção jornalística', uma súmula que permite um contacto certeiro com a sua postura e a tendência ensaística dos seus livros. Antes, destaco da conversa decorrida no debate, a capacidade que Agustina tinha de valorizar o que escrevia. Para quem escreve, é natural o reconhecimento. Afinal, ela apenas faz (ou fez) o que deveria fazer, e o que todos os autores deveriam exigir de si mesmos: a valorização daquilo que escrevem. Senão, Agustina teria pudor em pedir os «425 contos» de réis devidos por um conto a publicar numa revista -- fê-lo a Patrícia Reis. Quem for culto percebe que a escrita de um conto é tão difícil quanto a elaboração de uma ideia para um projecto de arquitectura e até o seu desenvolvimento, que envolve repetição mecânica de gestos, inserção no projecto de uma parafernália de 'signos', códigos e afins, para tornar o objecto legível ao comum dos mortais. Tal como no uso da palavra, dos seus significados, regras gramaticais e tudo isso. E foi muito engraçada a confissão, penso que de Francisco José Viegas, sobre uma conversa tida com a autora portuense, em que ela justificava o facto de Portugal ser um país de poetas, por ser também um país de preguiçosos. Melhor, que os livros dos poetas ficam bem nas prateleiras. É giro, hã, não concordam? De facto, poucos se atrevem à escrita do romance. É mais fácil alinhavar umas palavras e chamar-lhes poesia. Ai, as almas poéticas a revolverem-se! Já para não referir a redundante recusa de algumas editoras em fomentarem a escrita do romance, por se permitirem publicar o ilegível (em idioma luso e não só), e por trabalharem melhor com autores, digamos, 'agenciados'. Americanices? Sei lá. Com outra metodologia talvez existissem mais leitores, certo? Inês Pedrosa também confessou que os poetas são mais bem tratados pela crítica do que os romancistas. Deveria estar a dizê-lo para Helena Vasconcelos, crítica literária do jornal Público, presente na mesa. Tenho para mim uma explicação para o que disse: com a excepção de António Lobo Antunes, a maioria dos livros escritos por autores portugueses não se presta a interpretações metafóricas (como Helena Vasconcelos tão bem sabe), mas a arremessos ao nível da adjectivação mais jocosa. Querem exemplos? Pronto, contenho-me. Daí que seja muito mais fácil arriscar uma crítica (relativamente hostil) a um romance, a um texto em prosa, do que a um texto poético, embora o contrário seja igualmente plausível se ultrapassadas as questões éticas e aquele sentimento plural e contagiante: «coitado, é poeta». Para além disso, julgo, são poucos os que criticam livros de ambos os géneros com a capacidade de separarem a condescendência (vulgo, pena) despertada, da vontade com que ficam de fazer cair as espada de Dâmocles sobre o autor em análise. É isso ou aquele sentimento patriota de sermos poucos, portanto, unidos venceremos e seremos melhores pessoas, nação, do que separados e às turras. Ora, isto sugere que os críticos do género poético são mais bondosos e tolerantes com os autores do que os críticos de todos os outros géneros literários, sobretudo, o romance. Que raça, esta gente que lê e escreve sobre poesia, deveriam aprender com os críticos literários sérios, pá, que não têm papas na língua e deitam cá para fora o que lhes vai nos coraçõezinhos a transbordar de ternura e bondade. Toda a gente sabe que um crítico literário (espeficamente, de prosa) é um escritor em potencial, portanto, a inimizade criada com autores que já conseguiram publicar serve, e é preciso dizê-lo, para abrir portas. Ou ainda ninguém percebeu a lógica do raciocínio? Pôssa, é preciso explicar tudo. Agora que já alimentei outras inimizades no 'meio literário' (cá estou eu a citar-me a mim próprio, o que só prova que acabei de ler o último livro de Lobo Antunes, e por isso pergunto directamente ao autor: para quando um Volume, em vez de um livro tão 'fininho'?, obrigado, fico à espera do próximo, porque tenho saudades de 600 e tal páginas de texto omnipresente), agora, o excerto, como prometido:
«Muita coisa se tem dito sobre essas mulheres [«nos meus livros»], e se tem discutido e inventado. As mulheres que eu sempre preferi são de certa maneira vulgares, mas não conhecidas. Em geral, o que dominou sempre na literatura foi o tipo de masculinidade ideal, um tipo que todos aplaudimos e de que nos honramos. É do tipo do homem prático, amante da verdade e, como tal, insensível ao que se chama «o sobrenatural quotidiano». Ora, as mulheres dos meus romances têm esse pacto com o sobrenatural quotidiano. Não precisam de ser sacerdotizas, nem feiticeiras, para entrar no recinto da experiência humana, em que os conflitos com elas próprias superam a porfia com o objecto. Por isso, não raro essas mulheres parecem cruéis, porque a alegria não é a sua forma de condescendência. Elas são puras, mas não vazias; a impureza não faz parte da sua ignorância e, decerto por isso mesmo, não as afecta.
Em geral não há livros escritos por mulheres. Por homens, tão-pouco. São fêmeas as que se confessam em páginase páginas de queixume ou de triunfo sexual. E os homens escrevem de maneira submissa à sua masculinidade. Só alguns, muito poucos, têm a anomalia de ultrapassar as raias desse dever - o de serem machos exemplares. Quando isso acontece, são mais profundos do que o mar e mais vastos do que o mundo. Mas não se parecem ao gigante Golias nem ao valente Sansão, ambos perfeitos modelos de marcialidade.
A escrita marcial, eis o que predomina na literatura. Há sempre um castelo a defender, um fosso a transpor, um perigo a rodear. Tudo são tácticas de guerra, e não sei se até no «estado de graça» de que fala Inácio de Loyola, não haverá um estado de guerra que foi substituído por outra obsessão. Sem obsessão não há obra que valha. Ela alimenta o mistério do homem e experimenta a sua realidade.
Eu desejaria ter sido o poeta Lenz. Não exactamente para cair na sua depressão e tentar resolvê-la através dos artifícios da literatura, mas para conhecer o sofrimento na sua dimensão mais nobre: o sofrimento do desespero, aquele que não admite consolação alguma.
Há personagens na minha obra que se aproximam desse estado de desespero. Porém, conseguem criar uma barreira entre o facto e a consciência que o explora. Explorar um facto até ao seu limite, requer muita coragem, sobretudo se a pessoa sabe que vai decerto encontrar algo que a humilha. O homem nasce com o destino que o seu arquétipo lhe sanciona, e a raiz do seu sofrimento é a distância entre o arquétipo e a realidade.
Quando se anuncia que atravessamos uma era de corrupção, temos que considerar um factor importante: hoje tornou-se menos deprimente, menos acusador, dizer sim ao mundo. A isto chamamos corrupção; mas não será isto uma fase de libertação? Fase imperfeita, e atropleada, e insegura, mas, mesmo assim, útil ao esclarecimento do homem.»
Corri o risco de ter sido desagradável. Estou a penetenciar-me pelo facto com a leitura da primeira antologia de humor da revista The New Yorker, «Fierce Pajamas». Grato pela atenção.

 

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