Lembrar


De vez em quando lembro-me do meu Pai. É normal. Passaram quinze anos desde que ele morreu. Tinha eu dezanove anos quando percebi, tarde demais, ter muitas perguntas para lhe fazer. Perguntas que ainda guardo e que lhe dirijo quando o sinto um pouco mais distante e lhe quero dizer para ficar mais à vontade dentro de mim. Quando aperta aquele nó na garganta que a falência da morte suscita. Só que a morte não é apenas uma queda silenciosa para o abismo. O que ela nos transforma, aos que estamos vivos, para o bem, acaba por obrigar-nos a pensar de outra maneira, e a olhar para os outros com a 'limpeza' que o Miguel reproduz no seu texto. Aquele que cito na íntegra, por reflectir tranquilamente sobre o que nos passa pela cabeça quando um pai nos morre e nos desaparece. Mesmo se o esperássemos, ou se, não o esperando, tivéssemos consciência de que podia acontecer. Em vez de tentar escrever um texto mal amanhado e à pressa, deixo-vos cerca de 9,000 caracteres que exteriorizam uma beleza e uma sensibilidade únicas. De alguém que também sabe que 'a morte não nos fica assim tão bem', mas que nos explica a razão de podermos, apesar de tudo, lidar com uma certa esperança, revelada nas memórias que guardamos para sempre. Mesmo quando o Verão passa e o frio do Outono começa a querer fazer sentir aquela nostalgia certeira, o melhor é desdramatizar. E ler. Ler para lembrar e nunca esquecer.

«Nunca passeei com o meu Pai. A não ser uma vez, num corredor de hospital no Canadá, dois dias depois de ele ter sido operado à anca. Acompanhados por uma enfermeira, demos quatro passos, até que o meu Pai olhou parou, olhou para a figura dele, grande e barriguda, de bata cor-de-rosa e chinelos cor-de-rosa, e disse, repugnado: «Pareço a Madame Pompadour!» Para o velho capitão-de-mar-e-guerra, que até aos sessenta e muitos anos dançava chá-chá-chá todas as noites com a minha Mãe, bastava de humilhações. O que era a fisioterapia ao pé da honra ancestral da Marinha, da Pátria e dos Esteves Cardoso? Voltou para a cama, despiu a túnica e, aliviado, abriu o tomo de teologia que lia para se entreter.
Perante a insistência benigna da enfermeira, explicou que não tinha assim tanto interesse em andar. Que não fazia questão em locomover-se. Depois deu-me um
tupperware e mandou-me buscar gelo para festejarmos a passeata. Para ele, o facto de os hospitais canadianos terem uma máquina de gelo em todos os andares tinha sido motivo de força maior para escolher aquele país. Quando lhe expliquei que o gelo era para fins médicos, olhou para mim, desiludido, e disse: «Gelo é gelo, pá! Despacha-te.» E, naquele quarto asséptico, acabado o passeio e restaurada a dignidade, bebemos vários whiskies
clandestinos e bem servidos.
O meu pai morreu em Julho deste ano. Lembro-me muitas vezes dele. É a maior pessoa do mundo que é o meu. Um mês atrás deixei de chorá-lo. Já não levanto o telefone para lhe falar. Já não espero que ele apareça nos restaurantes onde costumávamos almoçar. Já me habituei a fazer as minhas traduções sem a ajuda dele e a viver num mundo mais pequeno do que eu pensava.
Do luto não sei falar. Mas queria falar da lembrança. Nem acho bem maçar as pessoas com a falta que ele me faz. Mas queria falar desta saudade particular. Falo no singular, presumindo que as saudades sentem-se por quem talvez se possa ver outra vez – e eu nunca mais verei o meu Pai. Não quero falar da tristeza da minha solidão, até porque não é de solidão que se trata. Está verdadeiramente só quem não tem ninguém que queira estar com ele. O meu Pai só não está comigo porque morreu.
Queria falar na felicidade da minha lembrança dele, que é uma solidão mais doce, porque vive num sossego que a vida não permitiu, que é uma solidão acompanhada pelo meu Pai, como se eu fosse pequenino outra vez.
Quem morre, não nos deixa. É levado. Não interessa porquê ou por quem – Deus lá sabe. É por isso que a minha lembrança dele é doce e sossegada. Não sabia que ia ser assim. Pensei que ia sofrer a vida inteira. E enganei-me, claro.
Só morre quem é esquecido. De resto, embora não viva – odeio a mania de dizer que os mortos continuam vivos – continua perto de nós, às vezes de forma mais patente do que quando estava vivo. Não se trata de pensar no que ele diria ou faria nas circunstâncias que se vão apresentando. Trata-se de senti-lo na alma, como se ela, depois de viver sempre sozinha, começasse a ser partilhada com ele.
O meu Pai vive a meias comigo na minha alma. Não gosta lá muito do alojamento – resmunga e protesta como quando estava em casa –, mas é lá que vive. Faz-me sentir menos sozinho que antes. Em menos de meio ano, a lembrança do meu Pai tornou-se numa lembrança feliz.
Queria que soubessem isto os pais que vão morrer e têm medo de deixar os filhos tristes, entre os quais eu e a mãe das minhas filhas, e as pessoas que têm medo do que lhes vai acontecer quando morrerem os pais delas. Esqueçam o luto, a insuportável ausência, a sensação que o mundo deixou de ter muros protectores, vozes, ombros, limites. O luto é para esquecer. Esqueçam tudo isso. O luto, como a vida, é uma coisa que passa. A única coisa a reter em tudo isto é a lembrança.
Animem-se. É uma lembrança feliz e permanente. Animar vem de alma. Quando nos lembramos de pessoas vivas, a vida atrapalha, tudo pode acontecer; tem-se o medo ou a amarga esperança do que ainda poderá vir a acontecer. Pois aqui vos juro que a lembrança de alguém que se amou e morreu faz-nos amá-lo mais ainda.
A memória encarrega-se de depurar as coisas, esquece e exagera onde convém, alimentando as recordações felizes à custa das tristes. São engolidas as coisas que nos ficaram atravessadas. Desaparecem os entraves: o que ficou por resolver, a culpa que parecia irredimível, o perdão que nunca se pensou poder dar.
A lembrança fica limpa. Vai mudando com o tempo. Reaparecem momentos que pensáramos esquecidos para sempre. Damos connosco a reinventar o nosso Pai, como se estivesse a crescer dentro de nós, quase como um bebé de alma, a crescer e a dar pontapés independentemente da nossa vontade.
Ir para o céu é passar para dentro dos corações que ficaram em terra. Haverá Paraíso mais bonito que viver dentro de quem amámos e de quem nos amou?
Só depois de ter morrido é que o meu Pai, que era gigantesco, coube dentro de mim. Agora que ele não está cá para me trocar as voltas, começo a compreendê-lo; agora que não está cá para ser, apesar de todos os esforços que ele fazia para disfarçá-lo, melhor do que eu em quase tudo, começo a sentir-me igual e ele. Vivo em paz com o meu Pai pela primeira vez na minha vida e, embora isso não valha a falta que ele me faz, vale a tristeza que me trouxe quando morreu.
Ainda por cima o meu Pai viveu tanto que me deixou muito para lembrar. Desta lembrança feliz, que é como um renascimento, espero tirar a força de um dia tornar-me nele. É diferente de pai para filha, ou de mãe para filha – mas um filho, quando já passou a arrogância da juventude, perde a vontade de ser diferente. Quando o nosso pai morre, deixa-se de resistir ao sangue e ao exemplo e passamos a desejar ter a graça e a grandeza que ele tinha – o que também é uma espécie de arrogância, mas é mais querida. No sentido mais puro de querer.
Quem sou eu, senão o meu Pai em mais pequenino? Como poderia saber isto e, sem embaraço, dizê-lo, se ele ainda estivesse vivo?
Embora a minha crença em Deus seja ainda periclitante, percebo agora que a morte tem de ser aceite. A lembrança feliz do meu pai ensinou-me a respeitá-la: a não revoltar-me contra ela, a não achá-la estúpida, a não lamentar o desperdício e a perda que representa.
A morte é uma transmissão. Aviva qualquer coisa na nossa alma. Eu sou hoje a casa do meu pai – um filho verdadeiro dele. Sei que a comparação é um bocado parva, mas quando lemos Platão, ou Wittgenstein, ou Beckett, nunca nos ocorre pensar que estão mortos. É assim com a lembrança do nosso Pai. Existe. Enquanto existir quem o lembrar, quem fala dele, quem oiça falar dele, ele existirá. E a existência é muito mais importante que a vida. De todas as coisas neste mundo, a vida, pelo menos modernamente, deve ser a coisa mais estupidamente sobrevalorizada.
Não se trata de glorificar a morte – mas apenas de fazer-lhe justiça. Não só quem morre que descansa. Com o tempo, também sossega quem ficou vivo. Ensina-nos a viver sem a facilidade da presença da pessoa amada, a habituarmo-nos a uma solidão saudável, onde a saudade e as lágrimas são só dois lugares da casa muito mais ampla onde se está.
E, sem dramatismos, prepara-nos, também, para morrer um dia, sem nos sentirmos tristes, medrosos ou culpados por causa disso. Um dia hei-de existir nos corações das minhas filhas e, se Deus quiser, dos meus futuros filhos, bem guardado e quentinho, protegido e amado, perdoado, muito lembrado e favorecido, como nunca em vida, por nunca o ter merecido, como hoje o meu Pai existe dentro de mim.
Às pessoas que ainda têm pai peço que façam o favor de conhecê-lo, de fazer-lhe perguntas, acerca dele, de tudo, dos pais e avós, de fotografá-lo e memorizá-lo activamente, como se soubessem (porque sabem) que vai morrer. Não é por ele. Se calhar estão zangados ou zangadas ou não se dão bem com ele. Ele que se lixe. É para vosso bem. Armazenem-me e arquivem-me esse pirata! Só assim conseguirão acumular estoques de lembranças – lembranças que um dia vos farão felizes e, talvez, num dia mais tardio, ainda mais falta do que ele.
Imaginem, por exemplo, que ele já morreu e que voltou durante um só dia, só para arrumar certos assuntos e esclarecer certas dúvidas. Assim assegurarão uma solidão bem lembrada, uma saudade feliz, uma vida em que uma parte da dor da ausência poderá ser trocada por uma boa dose de graça verdadeira e de riso.
Hoje, eu que também não gosto de passear, dou grandes passeios com o meu Pai. Ele não está vestido de Madame Pompadour, mas de camisa branca e calças de flanela, e não é pelos corredores dum hospital canadiano que passeamos, mas pelas vielas tortuosas de Alfama, onde ele nasceu e brincou, e que se parecem com as curvas e contracurvas do meu coração.»
[Explicações de Português, Miguel Esteves Cardoso, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001]

 

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