O senhor Silva


Há dois tipos de sítios onde me desloco com regularidade por gostar de comer pão. A Aldeia de José Franco, onde se compram broas de milho e centeio como nunca comi em mais lado nenhum. E uma padaria numa localidade chamada Alcainça, onde compro uns pães grandes a um padeiro a quem, por pudor, nunca perguntei o nome. Felizmente, fui esclarecido pelo papelucho amarelo da ASAE, que lhe fechou a chafarica até que o senhor Silva* tenha o cuidado de a adequar a uma qualquer modernidade que, julgo, será mais saudável por causa do inferior nível bacteriano. Tem graça. Uma padaria que deveria ser modelo para outras padarias, quer dizer, com um forno de lenha enorme e um balcão, nada mais, só o forno à antiga e o balcão, foi fechada pelos zelosos instrutores a mando daquele igualmente zeloso ser nomeado George, que antes de ser Director-Geral de Saúde aparecia na televisão qual sem-abrigo à procura de tacho. E a fama do homem é tão credível, que agora não consegue convencer ninguém que pertença ao auto-denominado 'grupo de risco', a tomar a vacina contra a gripe A. É tão, tão agradável, ver a nossa padaria de eleição fechada que, ao bater com o nariz na porta, dei-me ao trabalho de ler o papel que justifica, em tom pedagógico, a intenção por detrás do encerramento. «Fulano de tal está a envidar esforços para adequar este espaço a, e tal, e tal, e tal.» Ora, francamente, o padeiro não está a fazer nada disso. Isto já me parece perseguição da mais torpe, ao nível da intimidação sectária nazi. Porque, se formos a ver a questão com olhos, digamos, de quem tem três diopetrias para cima, o que perpassa (palavra chique) é uma nebulosidade digna de fazer o mais arguto dos bêbados desejar encontrar o fundo da garrafa. O palavreado lembra-me o nível de intimidação que um certo arquitecto usava com as suas meninas. A ASAE anda de punho em riste à procura de tudo aquilo que possa incomodar a saúde do cidadão. É por isso que a roulotte do Zé Tolas, estacionada nas imediações de um dos mais belos e seguros bairros de Lisboa, caracterizado pela fauna diversificada e por quarteirões com nomes de consoantes, Chelas, ainda frita as bifanas no óleo que a bisavó Joaquina dele usava. Então a ASAE esconde-se dos violadores, traficantes e codrelheiros? Foi por razões tão distintas quanto esta que, a partir de um determinado dia, Portugal, catano, passou a poder constar na lista de países civilizados que começou a disponibilizar aos seus ilustres cidadãos galheteiros invioláveis de azeite de marca nas mesas dos restaurantes. Acabou-se o azeite dos tios, dos primos, dos avós, aquele néctar cuja origem todos desconhecem mas a quem toda a gente reconhece qualidade. Deixou de ser possível a um tio chegar a nossa casa e dizer, Tenho cinquenta litros daquele azeite lá de cima (nunca percebi porque razão o azeite nunca é lá de baixo), a bom preço. As medidas da ASAE estão a ser responsáveis pela destruição do núcleo familiar, o senhor George anda de punho em riste a querer dar picas em toda a gente e a instruir o povo na boa arte de preservar a saudinha. Pensava eu que o punho levantado estava relacionado com a defesa do proletariado. Mas assim como a moda dos galheteiros durou cerca de 12 meses, também me enganei quanto à bondade do dito senhor. Os doutores que andam a recusar a vacina contra a gripe A por provir (chique) de origem questionável é que a sabem toda. Vou dar o recado ao padeiro de Alcainça. Pode ser que ele levante o punho e arremesse ao apóstolo George um pêro com envergadura pasteleira.
* A verdadeira identidade do padeiro foi ocultada para preservar a ASAE e os seus representantes de eventuais represálias. O senhor Silva* afiança que está prontinho (uma espécie de prontidão mais exequível e respeitável) para meter as mãos na massa e tratar da saúde a quem lhe tirou o pão da boca.

 

Quantcast