Tananananã, tananananatanã, tananananã, tananananatanã, tãaaaaa, tãaaaaaaa...


Parece que António Sérgio era um «independente», que amava a rádio, a quem toda a gente deve alguma coisa, por ter sido, como de facto foi, uma pessoa generosa, com ouvintes, colegas, amigos. Concordo com tudo o que é dito. Também fico agradecido ao António Sérgio, mas teria sido agradável que todos aqueles que agora se desmancham em expedientes para lhe prestar a homenagem devida, o pudessem ter realizado antes, quer dizer, quando o homem ainda estava vivo. Pelo menos, ele poderia agradecer condignamente. Só que agora assiste-se a esta convulsão de choros compulsivos, lágrimas discretas no canto do olho, de caras tristonhas e saudosas, sem que o visado possa corresponder, sem poder dizer nada, nem sequer pagar um copo à malta. Um ou outro artigo na imprensa, a alegria impassível de alguém (o MEC) que, no tempo devido, soube escrever sobre o artista da rádio, alguns programas de rádio dedicados ao autor. Tudo que o faria corar de vergonha, e que lhe daria uma alegria imensa. Tenho para mim esta incapcidade, que não é apenas tuga, de ninguém conseguir tratar os vivos com a qualidade, atenção e o carinho com que se tratam os mortos. Sinceramente, acho esta habitual tendência para valorizar quem morre e não está cá para poder ver, de uma morbidez tão agudizante como o cheiro a mofo. Nem a melhor naftalina, que se entranha na fronha (e roupa) de uma pessoa e nunca mais desanda, que é capaz de levar o maior dos brutamontes ao tapete, é capaz de acabar com o cheiro a mofo sem fazer estragos. É como quando uma pessoa deixa de respirar e, caramba, falece. Há um cheiro que se entranha na pele e nunca mais sai, por muita cal que se lhe ponha em cima. Cheira-me que seja a decomposição ou lá o que é.

 

Quantcast