ao alto

«o texto assim coagulado, alusivas braçadas
de luz no ar fotografadas respirando,
a escrita, pavorosa delicadeza a progredir,
enxuta, imóvel gravidade,
o território todo devastado pelos brancos
tumultos do estio,
nem o discurso mortal trespassado de láudano,
nem a vertigem de um odor de permanganato,
caligrafia a escaldar, cassiopeia fina,
largura afogada por uma velocidade,
enquanto a acentuar-se em vóltios de magnésio,
e essa crispada lentidão, acetilene que subia,
apurando o pesponto feroz,
a sintaxe como idade,
chegava em frio meandro o álcool à memória,
esponja a fulgurar lá dentro, num buraco,
a congestão da crista do pensamento,
cabeça encharcada,
os regatos da droga rutilando, óleo cândido,
espécie de fotografia perfurada, escorre o veneno,
e então exalta-se o mel algures quieto,
linhas arquejam, costura-se o ar, atormentado»

[in Os Brancos Arquipélagos, Ofício Cantante - Poesia Completa, Herberto Hélder, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009]

 

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