In Veritas

Consulto notas antigas e relembro frases escritas noutros contextos. Kierkegaard, que a dado momento reflecte sobre a memória e a recordação. Se, por um lado, 'a memória é uma condição transitória', diz ele, 'é por intermédio desta que o vivido é apresentado à consagração da recordação'. Gosto desta ideia de apreciação do que é elementar e ao mesmo tempo tão frágil. A memória é dotada desse acordo, um lastro que a recordação fixa, perdido quando a idade avança. Porque, diz também, à juventude falta a força da recordação, a capacidade de realizar uma observação distanciada. Acabo a concordar com esta afirmação. Quando pego num livro de memórias de um jogador de futebol famoso, ou de uma personagem que a sociedade decidiu adoptar como mascote, e desfolho algumas páginas, pressinto então a ausência de fôlego. O que contraria a capacidade física do atleta ou da figura que é prefigurada na capa. O ‘fôlego’ a que me refiro é o que Kierkegaard chama de ‘letra de câmbio sobre o eterno’. Aquilo que sendo suficientemente humano, consegue honrar todos os câmbios e admitir a sua solvência’. Em «As Chamas e as Almas», Agustina chama-lhes ‘fiadores’. O ‘povo inteiro’, os burgueses, o grupo urbano ou rural de que os Aurelianos se consideravam fiadores’. Vou citar: «os Aurelianos personificavam os respeitáveis, iracundos no génio que defende princípios, e também medíocres na obrigatoriedade de os nacionalizar e converter em narrativa.» Seria indelicado afirmar que quem joga a bola com os dois pés é medíocre. Seria cobarde dizê-lo assim, porque nem mesmo o Cristiano Ronaldo, e os outros que publicam livros de memórias com tanta juventude ainda para percorrer, entenderiam que o gancho da perspectiva não pretende ofendê-los, mas analisar a narrativa que decidiram escrevinhar. São homens piedosos que aceitaram sujeitar-se à machinerie da propaganda e do deleite imediato, pelo prazer que o dinheiro, a luxúria, confidencia em privado. As revistas cor de rosa alimentam-se nesta dicotomia. O que me inquieta, e que é também um facto curioso, é a necessidade daquelas pessoas quererem formalizar pela edição uma concepção de vida ‘plena’ aparentemente inesgotável no tempo. Porque todos sabemos que a carreira de um jogador de futebol, de uma modelo, de uma pessoa que apenas é famosa sem estabelecer para si uma leitura lateral, e confidencial, acaba. Desaparece. O que vemos são flashes, momentos efémeros que tentam prolongar (também nos livros), que um dia terminam, ou que se prolongam numa condição de imortalidade mantida pelo risível. Talvez o livro ainda tenha aquele vestígio de permanência, de recordação suficientemente humano para ser levado à letra. Tanto quanto um livre marcado a quinze metros da baliza, que resulta em golo certo porque o pé bate num determinado ângulo, projectando a bola a uma velocidade que a torna indefensável.

 

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