Fare nienti















As férias exigem concentração e desfoque. Distanciamento. Compreensão de que uma certa sofisticação, relacionada com o dolce fare niente, com o ser servido, faz bem à alma. Nem é o desejo de ter criados, nem a arrogância por se ser diferente, portanto, melhor, que é um conceito muito explorado. É pura e simplesmente o gosto pela capacidade de realizar nada senão beber bons vinhos a acompanhar boa comida, bem confeccionada, dormir e ler, ler o que ficou na prateleira inacabado, que os impedimentos profissionais adiaram. Ler para compensar o tempo que se perdeu a fazer outras coisas que interessam pouco ou nada, mas que são necessárias para nos mantermos à tona da vida, que como todos sabem, está pela hora da morte. É sair do mundo para dentro de uma bolha, protegidos, com tudo desligado, mesmo se o televisor está no enquadramento - que bom para quem ali for, basta-lhe mantê-lo desligado.

Depois disto interiorizado, vistos todos os lugares possíveis para concretizar tais planos, alguns deles considerados por mera curiosidade e masoquismo, pois pertencem ao imaginário e daí não passarão, nada como tomar a decisão pela via mais simples, aceitando que a delicadeza e o silêncio são melhores soluções que a molhada em frente a um mar de água morna a carpir as dores de um ano inteiro, com berraria, salpicos e sandes e bolos requentados pela temperatura apregoados como quem vai morrer se amanhã a venda for inferior à centena e meia.

Por outro lado, nos interstícios da escolha, conhecem-se ilhas, frentes de mar que apelam ao mais gutural e selvagem que há em nós, pois queremos desaparecer em três tempos para uma paisagem que nos revigore. Deixemos quem pode assegurar a sua paz. Leiamos para que essa paz subtil se enuncie em nós como uma ficção que se transporta para todo o lado. Estamos por um fio, e já falta pouco para nos levantarmos a tempo de dar um mergulho numa água que nos rejuvenesça, e lançe numa nostalgia retemperadora.

 

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