Caminhos de terra


Ordenamento do território é arquitectura. Embora na opinião pública esteja instalada uma certa confusão sobre a relação entre urbanismo, estudo da paisagem, especialidades e interiores, tudo isto é arquitectura. Tudo depende de estudos aprofundados sobre gestão do espaço, ou melhor, gestão de territórios e paisagens, mesmo que a uma escala mais pequena. Arquitectura não é, por isso, apenas aquilo que se pensa ser ‘a construção’ da casa, da habitação, e pouco mais. Arquitectura tout court é pensamento e não é um disparate pensar na relação entre partes diferentes de ‘especialidades’ distintas para chegar ao todo que a arquitectura despoleta e inventaria. Envolve procedimentos complexos que interferem directamente na vida das pessoas. É por essa razão que gerir um território não é uma actividade abstracta. Depende de conceitos muito específicos, de estratégias muito bem delineadas e do seu cumprimento rigoroso. Um plano é realizado nesse âmbito. Os planos são realizados nessa vertente. Nessa delicada linha ténue de entendimento entre partes (pessoas, organismos, entidades) que obedece e responde aos objectivos propostos. Isto regulariza o que nem sempre é justificável, como a coincidência definida de uma área onde se pode construir com o desenho que um privado decidiu fazer. Quando os planos são superiores às suas implementações burocráticas, isto é, quando é possível integrar diferentes vontades e articular a gestão territorial (a diferentes escalas), seguindo o espírito dominante de um certo progresso, de uma certa sofisticação, de um entendimento correcto do território e das suas vicissitudes e características, daquilo que o define, do que deve ser defendido e preservado, ou alterado e consolidado, todas essas actividades propostas acabam por concretizar-se, porque o ‘projecto de intervenção’ e desenvolvimento tem o lastro cultural que o compatibiliza com o tratamento da realidade. De um lado a utopia e a vontade expressa no desenho, no outro, o que é tornado físico: a matéria-prima. Os sítios onde vivemos. («Planeamento Urbano Sustantável, Miguel Pires Amado, Caleidoscópio, Lisboa).

 

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