Em obra


Em arquitectura, a clarificação é um processo complexo. Sobretudo numa reabilitação, a abordagem ‘boa’ assenta neste princípio de depuração construtiva e operativa. A ‘clarificação’ de um projecto existente, construído por alguém que não é quem agora intervém, tem fases distintas de apropriação, entendimento e interpretação e, diz-se à boca pequena, ser sempre muito mais dispendiosa do que a construção de alguma coisa nova, de raiz. Nem sempre é assim porque nem sempre se terá como objectivo primordial a renovação absoluta do todo. Num daqueles programas televisivos sobre ‘construção e o mercado imobiliáro’, um arquitecto (muito conhecido) dizia que, nos termos do cumprimento de um programa – a tal clarificação – tinha sido demolida uma parte significativa de uma casa localizada num pequeno lote, numa zona central da cidade, tendo sido edificado um novo corpo e substituída uma ínfima parte, entretanto recuperada. O motivo? Simplesmente, porque seria muito difícil (e dispendioso) adequar o novo programa, as novas funções, à ‘métrica’ arquitectónica anterior. Este esforço depende de uma série de factores condicionantes, que incluem também o orçamento disponível e a relevância da arquitectura. Aliar uma vontade consistente de renovação com uma articulação das diferentes fases do projecto é essencial para se entender o que envolve essa ‘clarificação’: se a demolição substancial, se uma intervenção mínima, em que se mimetiza a consistência do espaço na sua manutenção depurada, em que uma reflexão sobre o esqueleto da casa, o programa e o lugar, sugerem a manutenção do objecto arquitectónico com uma função renovada (ou não). (foto: Terraços de Bragança, arq.º Siza Vieira, Chiado, Lisboa)

 

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