Ao cubo


Um crítico é uma pessoa (alguns dizem que não, enfim) que, com uma impiedade dilacerante, disseca a obra de um autor. O que vale será, sobretudo, o sentimento em relação ao objectivo criado, mas a dimensão da crítica, por pequena ou grande que seja, adianta uma opinião formada também sobre a base criativa de um autor. Uma base que tem uma dimensão técnica, emotiva, parcial ou completamente sediada nas suas ansiedades, nos seus desejos, numa determinada visão do mundo, ou numa estrutura que é criada a partir de nada (como diz Lobo Antunes), e que mesmo sendo tudo por ser exactamente isso, nada do autor, tem uma ligação com a criação, com aquilo que originou o processo. O crítico não é exactamente um espelho. É impossível usar a metáfora do espelho quando se referem duas pessoas distintas que interagem a uma distância segura sobre a obra que uma delas construiu. É natural, por isso, que animosidades, o desespero, a intransigência, o total descaso pelos gostos de um (crítico) e outro (autor) se concretizem, quer na crítica (do autor), quer na autoria (do crítico), quando esses campos parecem misturados, quando os textos analíticos extrapolam uma quantidade assinalável de elementos resumidos, reunidos e concebidos por quem também necessita de compreender a escrita, pela leitura e dimensão da sua interpretação, do modo como assimilou a obra criativa e a assumiu como sua, para além de todas as considerações técnicas. Essas dimensões abstractas das análises, e da criação, são ambas referenciáveis, e são ambas semelhantes, e constituem-se ambas com uma enorme carga de relativismo, quer para uns, quer para outros. Talvez por essa razão, o autor queria saber pouco do crítico, e o crítico pouco do autor. O lugar do seu encontro é de tão difícil enquadramento quanto a carga da obra em análise. Este jogo é essencial. O fundo que uma obra detém, seja pela sua qualidade, ditada pelos temas que aborda, pela 'caligrafia', ou voz, por um conjunto de factores que passam pela sintaxe, pelo léxico, pela riqueza gramatical, seja pela sua aparente simplicidade, fragilidade ou (como já ouvi) falta de qualidade (pelo resultado de um processo que convém fixar), é fundamental para que possa ser admitida no patamar das obras literárias que o público terá à sua disposição - se as aceitará já é coisa que se desconhece até ao momento em que acontece. Quando digo 'aceita', refiro-me aos livros que acabam por ser referenciais, não porque o título e o autor estejam sempre à espreita de quem os leu, no género vociferar a toda a gente, «Sou um leitor excelente», mas porque influenciam, de algum modo, o leitor a pensar, ou, pelo menos, o capacitam a ponto de conseguir estar 'fora' da realidade durante um par de horas. Sem crítica, e crítico, esse esforço seria inglório e de ocorrência ocasional. Porquê? O jogo entre crítica e autoria alimenta uma plataforma de entendimento entre dois lados de uma barricada: o leitor. Ele está ao centro. Pode nunca ler uma crítica, mas há um esforço para que os livros cheguem a quem lê profissionalmente, para que o leitor, eventualmente, admita ler o livro e aprimorar o número de exemplares da sua biblioteca, da biblioteca dos amigos. Nisto, o que ocorre dizer é que os leitores existem e andam por aí. Pode nunca ler o autor no momento em que livro sai, pode lê-lo um dois meses uma década mais tarde, tendo-o estacionado na prateleira durante esse tempo, mas ao levar o livro para casa cumpriu um dos objectivos de quem escreveu o livro: ter alguém que, quer leia, quer não, manterá uma relação subjectiva com o objecto-livro, porque o adquiriu, e certamente o lerá um dia, ou passará a leitura a alguém. É seu, fará o que bem entende. Mas, a principal dimensão deste jogo é abstracta. É impossível conceber uma equação científica que quantifique esse espaço de manobra onde autores, críticos e leitores se movem. Ele existe, mas vê-se mal, ou por camadas, que são exactamente aquelas que distinguem os intervenientes neste espaço onde os livros se arrumam. Por vezes só quem habita os jornais, blogues, livros e revistas da especialidade consegue ter o vislumbre mais técnico, o rectângulo que enquadra uns e outros. A crítica nasce da vontade de um leitor compulsivo se aproximar dos seus autores e, por sua vez, de todos os que escrevem. E a obra, o livro, nasce da vontade do autor de escrever, de conceber um projecto que tem na cabeça. De lhe dar vida e voz. O leitor está, como disse, no centro de ambas as actividades. É uma espécie de balança, que tende para um dos lados sem nunca se comprometer. Evita fazer isso, enquanto o crítico o faz, com uma opinião formada, e o autor também o faz, com uma obra que é completamente absorvida e exposta aos olhos de quem disseca - isto inclui o leitor. Portanto, quando alguém diz que um crítico é implacável, convém perceber que ele está apenas a fazer o seu trabalho. Munido de instrumentos de análise que concebe e aprimora, comporta em si esse peso de dizer ao que vem, porque o faz, e os motivos porque aquele é um bom ou mau livro. Com as devidas ressalvas. Talvez por essa razão seja comum, pelo menos em Portugal, ver críticos literários publicar livros com relutância. Como se diz muito, lá fora isso é prática comum. Alguém que escreve sobre livros é encarado como quem pratica uma profissão. A relutância sobre a publicação de livros, mesmo literatura, é inexistente. É a minha percepção. Exemplifico: Zadie Smith, que publicou recentemente «Changing my Mind - Occasional Essays» (excelente audio-leitura ensaística para telemóvel), depois de uns quantos romances de sucesso, como «Dentes Brancos», «O Homem dos Autógrafos», «On Beauty». Existirão outros. São pessoas que vivem disso. O projecto que perseguem demanda publicação, crítica, opinião proferida, retiros temporários para escrever, profusão de matérias tratadas, mastigadas, resultantes em ideias que sustentam milhares de páginas escritas. Estou a referir-me a uma escritora brilhante. Em todo o caso, seria bom ver mais disso por aqui.

 

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