Trienal de Arquitectura de Lisboa 2010


«Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta

do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes –
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,

espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
- Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.

Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
- Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.

Falemos de casas. É verão, outono,

nome profuso entre as paisagens inclinadas
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros –
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam

com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
- E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.         

- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.


Falemos de casas, da morte. Casas são rosas

Para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes que fulguram lentamente
Até uma baía fria – que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma,

Entre um incêndio,
Junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.
»

[Herberto Helder, «Ou o Poema Contínuo». Lisboa, Assírio & Alvim, 2004. p. 9-12.]

Começa amanhã a Trienal de Arquitectura de Lisboa,  com o tema geral como mote, «Falemos de Casas», título baseado no poema citado acima de Herberto Helder. Exposições, debates, conferências e um conjunto de eventos associados, farão desta Trienal um momento especial para a arquitectura portuguesa e ibérica, por se ousar discutir um património fulcral, e consolidado, para o imaginário colectivo. Das exposições destaco: o resultado de um exercício proposto às universidades, para intervir no bairro da Cova da Moura, intitulada, Falemos de Casas: Projecto Cova da Moura, (Comissário, Arquitecto Manuel Aires Mateus) e a exposição que enuncia uma aproximação ao universo da construção de uma casa 'popular' que se repete em moldes de construção bastante economicistas, possibilitando até a auto-construção, em Luanda, intitulada, A House in Luanda: Patio and Pavilion (comissário, Arquitecto João Luís Carrilho da Graça), decorrendo ambas na Fundação EDP - Museu da Electricidade; a exposição Falemos de Casas: Quando a Arte fala de Arquitectura, que decorrerá no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado (Comissário, Delfim Sardo), numa apropriação pelos artistas sobre os 'caminhos' que a arquitectura percorre; por último, a exposição Falemos de Casas: Entre o Norte e o Sul (Comissários: Ana Vaz Milheiro, Diogo Seixas Lopes, James Peto, Luís Santiago Baptista, Manuel Graça Dias, Max Risselada, Pedro Pacheco e Peter Cook), que decorrerá no Museu Berardo, e em que se 'descrevem' um conjunto de intervenções de arquitectos portugueses em África (e noutros países), em que se demonstra que a arquitectura portuguesa sempre teve uma enorme vitalidade fora de Portugal, mesmo quando a Metrópole congestionava. Destaco também a conferência que ocorrerá nos dias 19 e 20 de Novembro, na Aula Magna, intitulada Arquitectura [In] ]Out[ Política, tendo como curadores Claudia Taborda e José Capela, sobre o papel interventivo da arquitectura e do arquitecto no espaço da cidadania. Mais informações e destaques sobre o que vai acontecer, podem ser encontrados no site oficial da Trienal. Parece que foi ontem que a organização desta Trienal começou, em Sintra, num auditório a precisar de obras, com painéis de projectos de uma boa parte de alguns dos actuais intervenientes (que me passaram pelas mãos e que ajudei a pendurar).

 

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