Bloom e a vida contínua - Livros do Ano 2010













Qualquer semelhança da personagem principal deste livro com Harold Bloom, o crítico literário, é mera coincidência. Ou talvez nem tanto, porque Gonçalo M. Tavares procura reflectir a atitude de quem medita no que sucede. A estranheza de uma leitura inicial, convive com uma suave e inequívoca partilha que se prolonga no tempo. Utilizar um texto estudado como Os Lusíadas, na génese da sua identidade, plasmando a sua estrutura formal de Cantos e Versos, numa certa ironia, na análise do quotidiano, esvaziando-o do seu conteúdo para lhe sobrepor uma dose animal de conceitos, tergiversações, gestos e hábitos contemporâneos, sem, no entanto, destruir o original, é obra para considerar. Uma excelente ideia num livro ‘contaminado’ de cidades e ambientes, aspectos práticos e apontamentos (de ideias). Em cada verso contenção, exposição. Desditos de diversa ordem, cruzamentos, diálogos narrados, inflectem numa profundidade que interfere com a sintaxe da prosa corrente. Aqui, o chão é outro. Uma luta para entender as contrariedades da vida.

Outras escolhas (2010):


«O Fio da Navalha», Somerset Maugham, Dom Quixote – Colecção Vintage - Romance;
«O Livro da Consciência – A Construção do Cérebro Consciente», António Damásio, Temas e Debates – Círculo dos Leitores;
«Fama e Segredo na História de Portugal», Agustina Bessa-Luís, Guerra & Paz – Colecção Três Sinais;
«Os Cantos – A Tragédia de uma Família Açoriana», Maria Filomena Mónica, Alêtheia Editores.

 

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