Deixar cair a culpa













Romance aclamado pela crítica aquando da publicação, em 1980, dá voz a um autor que reprime o excesso. A lapidação narrativa elementar deste, durante quatro décadas, editor da The New Yorker, tem os seus efeitos. O tema principal é a culpa reprimida de uma criança que, num assomo de inquestionável dificuldade, deixa de falar a Clent, um amigo, conhecido, com quem já tinha partilhado brincadeiras. O que despoleta este acontecimento é muito mais do que está escrito, que ocorre em paralelo à vida da personagem, narrando à medida que envelhece. Embora seja perceptível a razão. Alguém morre assassinado com aquilo que inicialmente se assemelha a uma bala perdida, que afinal o não é. O que motiva tal tragédia é explicado em detalhes adicionados aos poucos, ou de um modo torrencial, num registo galopante de inúmeras etapas passadas, para que se vá entendendo o motivo de Lloyd Wilson gostar de Fern, mulher de Clarence Smith, e vice-versa. E porque o filho de Clarence e Fern, Clent, deixa de ser amigo para ser considerado um estranho na comunidade. O meio rural onde a acção sucede apenas reproduz os costumes de uma época, alguns deles ainda bem latentes, enquadrando este retrato bastante rigoroso dos ditames que cerceiam a prática do convívio (da vida) numa pequena comunidade, onde o anonimato é mera ficção.

Título: Adeus, Até Amanhã

Autor: William Maxwell
Editora: Sextante
Tradução: Miguel Castro Caldas
Classificação: 5 estrelas


Prós: Articulação narrativa; credibilidade das personagens; enredo; contenção
Contras: Nenhum

 

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