O Alpinista

O alpinista chegou ao topo do mundo. Olha para baixo, observa um movimento constante sem perceber bem do que se trata. A distância é muito grande, e os seus olhos não conseguem ver tão bem como outrora. A delicadeza e o empenho foram duas características dominantes no seu percurso. O horizonte e a paisagem que vislumbra são agora uma confirmação do seu esforço. A brisa corre suave, de feição, com subtilezas diversas a corroborarem uma ideia de permanência. Deu e tirou de um lado, para oferecer e manter no outro. As cavilhas foram colocadas estrategicamente na montanha que escalou, num caminho combinado entre a consciência, a racionalidade do percurso e uma vontade forte de chegar. Convergir num interesse mútuo, mesmo se divergindo por caminhos que o afastaram por momentos do trilho para o topo, quando as coisas esbarraram num dislate, reverteu sempre qualquer dificuldade a favor de uma convicção profunda, aquela ideia. Sua, de um núcleo duríssimo, do seu âmago. Apostar na persistência, na exposição solar à nudez da montanha. Tentar fazer isso reprimindo, afastando, afugentando com argumentação variada qualquer embargo que as falhas no penhasco suscitassem. Por vezes, penhorou uma ideia de moral. Nesses momentos, o corpo contaminado reagiu com repulsa, protestando, mas o objectivo final estava próximo. Ignorar a dor e o sangue para um bem maior, pensou, fazer tudo para apanhar o comboio da vitalidade, sim, resolver a contaminação com prozac tomado de modo continuado, estava a escrever uma vitória que merecia reflexão e protagonismo longe do pé da página. Digamos, os degraus, mesmo inventados em ângulos e orientações diversas, esgravatados na terra, os degraus são para subir preenchendo cada espaço vazio com uma marca indelével. Agora, no topo, já esqueceu as dificuldades que teve. É atingido por um assomo de lucidez. Está muito contente por poder perfilar numa cartilha muito própria, a estratégia que lhe permitiu atingir o seu alvo. Questiona-se, claro, em períodos muito rápidos, sobre a legitimidade da estratégia. Compreende que a vida se concretiza aquando das mudanças de paradigmas, espera ter feito a sua parte. A linguagem do tempo denuncia o nascimento de um novo dia. A brisa continua a correr com suavidade e a intensidade do ar rarefeito, aliada a uma intensa luminosidade, muito limpa, contrastam com as mazelas ocultas no interior do corpo. Vai para dentro da sua concha em paz. Sem qualquer melindre. Passou meia vida para chegar ao topo da montanha, e não mais descerá. Os outros que reescrevam a história. O Alpinista está cansado, mas feliz.

 

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