Todos os dias




A frase perfeita é inatingível. Gonçalo M. Tavares reconhece a dificuldade em transcrevê-la. Numa entrevista imaginária, poderia afirmar: «a frase perfeita tem uma estrutura, e essa estrutura, que não é variável, obedece à implementação de certas técnicas. Envolve uma escolha para que a soma de todas as palavras tenha um resultado: a perfeição inatingível». «O Senhor Eliot e as conferências», «Matteo Perdeu o Emprego» e «Uma Viagem à Índia», todos títulos de 2010, são razões suficientes para realizar uma comparação electiva da literatura como processo de conhecimento, que deixa rasto e memória. Ter ganho o Prémio de Melhor Romance Estrangeiro, em França (2010), com «Aprender a Rezar na Era da Técnica» (2007), é apenas uma novidade reconhecível. M. Tavares busca uma ‘estratégia’ que o não é, procurando uma espécie de pronúncia do quotidiano em versão analítica: desmanchar o cepticismo mais objectivo, as noções mais concretas do ser, na sua existência mais pueril, servindo-o em estado puro. Num período especialmente complexo e desastroso da sociedade, onde os valores e a moral definham, com as economias mundiais suplantadas pela ganância, o segundo título, «Matteo perdeu o emprego», promete um entendimento lateral do ‘despedimento’ de Matteo e um vislumbre sobre detalhes fundamentais da vida de outras 25 personagens (homens e mulheres). Começa assim: um homem corre todos os dias à volta de uma rotunda, até decidir inverter esse sentido, morrendo. O homem que o atropelou, ‘projectando o seu corpo a grande velocidade’, retocava o automóvel todos os dias, antes de se aventurar pela estrada, e fê-lo também no dia do atropelamento, enquanto cuidava de encontrar o número 217, numa rua onde todos os números eram iguais, para entregar uma encomenda. A espiral continua. A ligação de todas as personagens compreende um intrincamento narrativo contínuo. Muito rendilhado nos pormenores – a literatura afirma-se aí –, mas reconhecível por ser um espelho das escolhas de cada mediador (dos 26). As comparações e avaliações estão ausentes: o livro remete para os interstícios da moral e dos bons costumes. Na série ‘senhores’, do Bairro, «O Senhor Eliot e as Conferências», escritores reais são colocados em situações improváveis, onde o humor, a ironia e o quotidiano sublimam uma aparente simplicidade no trato das personagens, de aspectos muito concretos das suas vidas, refinados em súmulas de frases que contêm alguns embaraços e desembaraços. Explicam-se versos de René Char, Sylvia Plath, Marin Sorescu, W. H. Auden, Paul Celan e outros, não exactamente nesta ordem, porque a ‘ordem’ das coisas muda, sem vivacidade que dela dependa. O texto é forte, concreto, contido, e as conferências dão-se como se cada interveniente soubesse tanto como o narrador, que delas deriva propositadamente uma retórica. Abordagem estética que a «Viagem à Índia» desafia. Apoiado na estrutura d’ Os Lusíadas, Tavares faz uma interpretação contemporânea, verso a verso, da violência, da felicidade, do desespero, da incerteza, da consumação do amor e dos paradoxos que Bloom observa: os nossos dias em versão poética. Estamos perante uma obra que tem na linguagem um enorme trunfo.

 

Quantcast