Era uma vez



















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A edição de 2011 do Rally de Portugal começou ontem na Praça do Império em Lisboa. Quarenta mil pessoas assistiram ao espectáculo num lugar plano, afastados o suficiente dos veículos, com as dificuldades inerentes de visão, e um pató levou com a roda de um dos carros concorrentes na cabeça. ‘Deve ter pensado que fazia parte do espectáculo’, disse um amigo meu que assistiu. Concordo. Modernices do século XXI. A vinda a Lisboa foi um ‘docinho’, para a malta de Lisboa ficar contente, para se calarem certas vozes. Aquelas que dizem que a ida do Rally de Portugal para o Algarve, destruiu definitivamente o que caracterizava o melhor rally do mundo.
Agora, o Estádio do Algarve é o ponto de encontro de todas as especiais. Agora, os meninos pilotam entre Santa Clara e Lagos, para não se cansarem em demasia. Agora, o Rally de Portugal, perdeu todo e qualquer interesse. É chato, absurdamente entediante, decorre lá para baixo, no lugar onde a destruição urbanística da paisagem deu origem ao pior cenário urbano de Portugal, onde a desintegração é comum e marcante. Faz sentido que um Rally sem identidade, portanto, destruído na sua essência, esteja a decorrer no lugar onde foram cometidas algumas das piores atrocidades urbanísticas do último século. Onde a paisagem é um aglomerado de betão com umas quintas bem localizadas e organizadas, onde as pessoas do luxo convivem.
O Rally de Portugal sempre esteve associado a diferentes polémicas, questões mais ou menos duvidosas relacionadas com a organização e competições alheias com outros rallys do mundo. A fase pré-Sintra, com os antigos Grupo B, carros demasiado potentes para o chassis foi, provavelmente, a melhor, que terminou como se sabe. Com o acidente que deu má reputação a todos os espectadores portugueses.
Depois do acidente em Sintra, o Rally teve períodos melhores e piores, mas a curva descendente, quer a nível competitivo, quer de organização, foi sofrendo com isso. Enquanto César Torres foi vivo (até 1997), o Rally manteve algumas das suas características. A defesa dos princípios que o caracterizavam foi realizada com o empenho de quem reconhecia ser essencial construir um projecto definitivo, que não se compadecesse com conveniências, sobretudo conveniências externas. A nova organização está a fazer um bom trabalho? Não comento. Mas levar o rally para o Algarve, é capaz de ter sido uma solução de compromisso que acabou de vez com toda e qualquer reputação.
Primeiro, deixámos de ter asfalto e terra, para passarmos a ter asfalto, e depois passámos a ter apenas terra. É verdade que as regras, a pressão das marcas construtoras e os mimos exigidos e dados aos pilotos, fizeram dos Rallys uma panaceia, sem surpresas. Um bocejo. O Mundial de Rallys tem assim na mão um projecto que apenas ocupa espaço nas televisões (por cabo), que motiva os programadores para a realização de jogos de computador (e consolas) cada vez mais próximos da realidade, e pouco mais. Tal como em Portugal, as assistências diminuem, diminui o interesse e, por sua vez, desaparecem os patrocínios.
A falta de credibilidade, a fraca assistência ao Rally de Portugal é, por isso, uma consequência da gestão dos interesses corporativos de quem compreende o Mundial de Rallys numa lógica que combina o facilitismo com o laxismo, de quem pensa apenas na visibilidade do écran, e de quem, em Portugal, não consegue assentar o projecto do Rally de Portugal em bases sólidas que o sustentem, sem ceder ao corporativimo internacional.
É uma sorte haver Rally em Portugal de dois em dois anos? Lá está a base condescendente que corrói tudo, e que retirou ao rally o seu ambiente paisagístico natural. Qual? De Lisboa até Trás-os-Montes. Era isso que acrescentava valor ao produto. Isto porque aos portugueses tudo se pede. Porque senão vem o papão da substituição por outro Rally do Mundial. Quando se deviam discutir medidas para acrescentar valor, tomam-se outras medidas para que um evento com pergaminhos, com identidade, seja destituído dos elementos fundamentais que o caracterizaram.
Agora já não assisto ao Rally de Portugal. Agora que o poderia fazer, credenciando-me como jornalista, levando os amigos todos atrás, o meu interesse é nulo. Agora, que poderia exibir orgulhosamente o logo da organização numa viatura de transporte, fico em casa.
Quando ainda assistia aos Rallys, sonhava poder relatar o evento em textos escritos para jornais. Quando fazíamos o nosso rally atrás do Rally propriamente dito, com os cadernos elaborados de um modo quase rudimentar com fotocópias de fotocópias, cópias de mapas e descrições de chegada a PEC’s (se não sabem o que é, investiguem), a sua localização, os detalhes que nos levavam a sítios que, por vezes, nos faziam ter orgulho de estar a assistir àquele espectáculo, sentíamos a verdadeira natureza de um evento tão distinto. Apreciávamos paisagens belíssimas, comíamos em lugares distintos, ou não tão distintos quanto isso, mas conhecíamos lugares e pessoas que nunca esqueceremos. Recordo um frango deglutido quase a meio de uma tarde, em desespero, numa quinta qualquer, numa espécie de restaurante improvisado por um homem que nunca terá lavado as mãos na vida, com um molho cuja imagem ainda me fascina, pela consistência artística das suas cores.
Foi sobre estas pessoas que escrevi na primeira oportunidade que tive para publicar uma reportagem num jornal. Hoje, seria impossível tecer considerações como as que realizei. O Rally de Portugal decorre numa espécie de estância turística que facilita a logística dos concorrentes e, sobretudo, dos construtores, das marcas e da Organização do Mundial de Rallys, e que dificulta a vida a quem assiste, às pessoas para quem é, supostamente, organizado. É, provavelmente, esse o objectivo final – ter menos gente a assistir. Dificultar os acessos às PEC’s, evitar problemas logísticos.
Por outro lado, o Rally foi adoptado pelo socialite português, tal como o Estoril Open e outros eventos semelhantes, para ficar bem na foto. Foi a banhos, e duvido muito que volte a ser como dantes. Que volte à rudeza do verdadeiro interior, às dificuldades que exigiam de construtores, concorrentes, patrocinadores e espectadores, uma constante e profunda atenção e empenho. Tudo o que tinha de valor acrescentado, eclipsou-se. Portanto, paz à sua alma.

 

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