Faz hoje uma semana

Quando morre uma pessoa de quem gostamos, morre com ela um bocadinho de nós. A minha avó morreu e com ela morremos todos um bocadinho. Nesse dia morreu para sempre uma parte de nós que nunca mais verá luz do dia. Dias antes, deixei-lhe em cima da mesa de cabeceira do hospital, uma laranja da árvore de onde as apanhava entre Março e Fevereiro. Para sentir o odor intenso da pureza, a textura suave de um certo tipo de doçura, um pensamento recorrente quando adicionávamos gramas de açúcar ao suco para compensar o amargo específico daqueles frutos sumarentos. Aquela árvore era assim. Para poder dormir melhor a sesta, de que gostava, embalada pelo que conseguisse recordar. Numa das últimas vezes que nos vimos, dormitava muito, que foi uma coisa que aprendeu a fazer depois de chegar aos oitenta e três anos. Acordar mais tarde facilitava-lhe a vida, tal como me facilitava a vida a mim, quando era pequeno, ela dormir cinco horas, acordar muito cedo para preparar os almoços, e deixar-me uma mesa farta de pequeno-almoço, que eu tomava antes de ir andar de bicicleta, por montes e vales atravessados hoje por moradias tipo maison. Ainda hoje gosto do cheiro do café acabado de fazer que sentia ao descer as escadas, comprado na mercearia da cidade, em idas às compras que para mim foram marcantes. As gomas, os sugus, as pastilhas elásticas e os chocolates, os volumes duplos dos livros aos quadradinhos, do Tio Patinhas ao Pato Donald, o Gastão, pá, que detestava por ser um cínico, livros que devorava em hora e meia, e que relia até à exaustão enquanto mastigava. De tanto ir à mercearia, acabei por aprender a distinguir a fruta boa da fruta podre, as hortaliças roliças das enfezadas, a reconhecer os odores da praça da fruta e da praça do peixe, informação preciosa que me acompanha quando vou aos mercados, supermercados e praças desta vida. Aprendi a apreciar as caminhadas longas pela cidade, por diferentes lugares, para as quais ela se preparava com esmero. Hora e meia, no mínimo, porque ir à cidade tinha o seu encanto, era importante distinguir o tempo em que se está a tratar da terra, a pedir para os trabalhadores agirem rápido, a meter a mão na massa, e o tempo em que se vão buscar as coisas que depois fazem uma quantidade de gente feliz. Enquanto estão sentados à mesa, a comer, a beber, a conversar, ou em silêncio, a apreciar o repasto. Só me lembro da comida que fazia. A galinha de dois quilos para duas pessoas, que preparava com um carinho especial numa enorme assadeira, acompanhada de batatas cortadas em gomos grossos. Os bolinhos de amêndoa arrumados em papel branco redondo, com um rebordo tricotado, as tortas de chocolate, porque uma nunca chegava, do pão-de-ló leve, quase nuvem, as tortas de laranja embebidas no sumo, salpicadas de açúcar branco, o salame de chocolates, os bifes fritos em duas gorduras, com batatas fritas e arroz, a dobrada (quando se podia fazer), o bacalhau de posta alta com grão, banhado por azeite vindo lá de cima, com ovos grandes cozidos, batatas tiradas da terra horas antes, couves de um verde intenso, de variedades diferentes, e os nabos (que odiava), as cenouras fatiadas em longas lascas. Só me lembro de receitas escritas com uma letra de menina, em papelinhos rasurados, com tamanhos diferentes, dentro de um livro que era uma agenda nem sei de que ano, sei que antiga. Só me lembro de comida, do que comi e do que não comi. Em casa dela nunca comi peixe cozido. Nem papas de farinha de trigo ao pequeno-almoço, para compensar qualquer debilidade. Bebia leite gordo retirado horas antes da vaca, ainda fumegante de ser fervido, comia iogurtes com fartura, doces de colher, barrava o pão com uma pasta de chocolate derretido. Enganava as potenciais crises de fígado com as minhas próprias recomendações de duplicação das doses. Explico a teoria: se comesse mais do que devia, o meu estômago e fígado iriam estar tão preocupados a processar, que nem sequer quereriam saber o que estariam a deglutir. A quantidade pela especificidade, pela beleza e diversidade. O palato agradecia, embora o corpo, por vezes, se ressentisse. Agora, mais do que nunca, recordo o seu empenho na cozinha. Só me lembro disso, da boa, maravilhosa, saborosa comida que lhe saía das mãos enrugadas. Eu descia as escadas de manhã e lá estava ela, a cortar os legumes do cozido à portuguesa, um dos pratos que preparava quando eu telefonava a dizer que iria chegar dentro de dias ou horas. Ficava ansiosa se lhe dissesse que chegaria daí a poucas horas, ou no dia seguinte. Tinha menos tempo para preparar os menus, a casa, o quarto. Chegava a sugerir o fim-de-semana seguinte. Perguntava-me, então, o que queres almoçar. Eu escolhia impreterivelmente o mesmo. Cozido. Com as carnes, os enchidos – o chouriço de carne pura, intenso, a farinheira. As verduras, o arroz do cozido, cozinhado naquela bola de inox que via retirar da panela funda, enorme, onde a magia dos aromas, dos diferentes ingredientes, se concretizava. Cozinhado no ponto certo, nem muito seco nem muito aguado, dava início a uma boa semana, temporada, ou fim-de-semana de repouso. O cozido fazia-me sentir vivo. Ainda faz. Só penso em comida quando penso nela. As refeições de bancos corridos e mesas longas, com a família dos Moleanos, de Lisboa, de todo o lado, a agitação dos pratos colocados em cima da mesa, depois distribuídos pelos lugares, substituídos à medida que os menus decorriam. A minha avó gostava tanto de comer como de falar. Sem ser uma pessoa de grandes conversas sobre a natural existência, e a filosofia dos livros, dava alguns conselhos para a vida, poucos, a sabedoria calava-a para não se intrometer, era o que dizia. Nos últimos tempos, falava quando podia, quando a visitavam, em confissões de tardes inteiras à neta, a recordar histórias com princípio, meio e fim. A contar alguns segredos e a identificar o lugar onde os outros poderiam estar, sem barafundas. Com desenvolvimentos variados e desfechos engraçados, e muitas coisas que ficam por dizer por estarem simplesmente implícitas. Acreditava que uma palavra, quando é dita com rigor e delicadeza, tem força e poder para mudar comportamentos. Amplia a manifestação do seu significado. Desejou sempre o melhor e quis sempre o melhor para todos nós, netos, primos, sobrinhos, tios, irmãos, cunhados, os vizinhos, toda a gente. Para os de quem gostava, e até para os outros, de quem gostava menos. Há uns dias, quis ver os netos todos, porque sentia que estava próxima a hora desta despedida. Sabia que na sua ausência teríamos de cuidar uns dos outros, tal como cuidámos dela, até outro dia. Provámos que era possível, que com esforço, dedicação, empenho, e muita generosidade de quem cuida e respeita idosos como se fossem seus familiares, é possível atenuar a natural agitação de uma partida. Que ela sentiu até ao último minuto. Nunca estivemos sozinhos, mesmo quando nada acontecia. Até nesse último minuto, houve uma espécie de harmonia, porque enunciava a paz reparadora do sono profundo. Quando penso na minha avó viva, sei que morreu num dia luminoso de Sol. A meio da manhã, enquanto um céu limpo de nuvens se firmou e estendeu no horizonte. Foi um dia bonito para desaparecer. Estava tudo bem, embora também estivesse tudo mal.

 

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